Como apps de entrega estão levando pequenos restaurantes à falência
Após levantar US$ 500 milhões, maior aplicativo de entrega de comida do país investe em promoções agressivas, impede acesso a clientes e monopoliza dados estratégicos.
Promoções agressivas de aplicativos geram queixas de restaurantes menores e acusações de dumping — Foto: Darlan Alvarenga/G1
Aos 49 anos, Ricardo Masironi desistiu de empreender. Desde novembro, o ex-dono de hamburgueria se tornou cozinheiro de uma cervejaria artesanal em Moema, zona sul de São Paulo.
Masironi havia criado a Montanha Burger em 2016 e viu a chance de prosperar a partir do serviço de entrega de comida iFood, que estava expandindo as suas operações na mesma época.
Foi uma decisão acertada: com "propaganda" garantida por parte do parceiro de delivery, a Montanha Burger, que tinha um pequeno salão próximo ao metrô São Judas, também na zona sul da capital, chegou a despachar 90 entregas por dia, metade da sua demanda diária, com uma média de R$ 55 por pedido. Nada mau para um negócio de pequeno porte.
Mas, no começo de 2019, algo começou a dar errado: os pedidos deixaram de aparecer de uma hora para outra. Não foi uma redução gradual, fruto de um possível aumento de competição. Nem uma mudança de cardápio ou receita, que permaneceram exatamente os mesmos.
Masironi sequer teve a chance de sondar a clientela para saber o que estava acontecendo: no final de 2018, o iFood já havia deixado de fornecer o contato dos clientes aos restaurantes. A partir de então, o consumidor passou a ser do serviço de entrega — não importa quem faça a comida.
"Com o tempo, o iFood mudou radicalmente o atendimento aos restaurantes", diz Masironi, que acabou fechando o salão em agosto do ano passado. Manteve apenas o delivery e enveredou pelos lanches mais baratos, vendidos a R$ 9,50.
Mas seus produtos não eram exibidos na seção de comida barata do iFood, de até R$ 10. Questionou o aplicativo, mas não obteve resposta conclusiva. Sem pedidos, Masironi não suportou os custos e encerrou definitivamente a operação em novembro.
O caso da Montanha Burger não é isolado. A reportagem conversou com outros oito donos de restaurantes, cafés, bares e lanchonetes que colecionam mais dissabores que vantagens após contratar os serviços do iFood.
As principais queixas se referem às "promoções malucas" propostas pelo aplicativo, do tipo "compre um lanche e ganhe outro", ou a oferta sistemática de cupons de desconto de R$ 10, que acaba com as margens de lucro dos estabelecimentos.
"A minha porção de calabresa custa R$ 14. Eu tenho que pagar 27% sobre o preço do pedido para o iFood. Como é que eu vou dar um desconto de R$ 10? Vai me sobrar o quê?", questiona Jane Bassoli, sócia do marido Alexandre Bassoli no Bassa Bar e Restaurante, na zona oeste de São Paulo.
Questionado pela reportagem, o iFood não respondeu se, ao formular as suas promoções, que são as que mais chamam a atenção dos consumidores, leva em conta o percentual de lucro dos restaurantes.
Refeição a R$ 4,99
Sem pedidos, Ricardo Masironi não suportou os custos e encerrou definitivamente a operação em novembro — Foto: BBC
Na percepção dos estabelecimentos, a relação com o iFood começou a piorar na segunda metade do ano passado, quando o aplicativo investiu no Loop, o seu próprio "restaurante". Por meio do Loop, o cliente programa a compra do almoço na véspera ou até as 11h do mesmo dia.
A primeira refeição é vendida a R$ 4,99, sem taxa de entrega. A partir da segunda refeição, o preço é R$ 9,99, também com entrega grátis. "Cinco reais é o preço de um salgado. Como a gente vai competir com isso? Como ter lucro e servir uma refeição decente a R$ 10, sem taxa de entrega?", pergunta Alexandre Bassoli.
A reportagem apurou que, no caso do Loop, o iFood faz acordos com restaurantes que vendem comida por quilo. O cardápio do dia é definido previamente e, na véspera, o iFood encomenda ao restaurante a quantidade que será entregue, com base na demanda já agendada. Na prática, o aplicativo compra o aumento da capacidade do restaurante, a quem paga antecipado.
Na visão da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), a prática indica dumping — quando um fornecedor põe à venda um produto a um preço muito inferior ao do mercado. "O delivery é um ponto chave para a competitividade dos restaurantes, cada vez mais os clientes buscam conveniência", diz Célio Salles, membro do conselho de administração nacional da Abrasel. "Mas o aplicativo não pode praticar subsídio na venda dos produtos, o que acaba deturpando o equilíbrio do mercado", afirma.
A empresa se defende. "O iFood esclarece que age de acordo com a legislação aplicável na operação do Loop e em suas demais atividades e que não compactua com qualquer tipo de prática ilegal. O modelo de negócio desse serviço tem como base a utilização da capacidade produtiva ociosa de restaurantes e o agendamento de pedidos combinado à logística de entrega eficiente, o que resulta em refeições a preços mais acessíveis."
A prática não envolve apenas os pequenos restaurantes. O franqueado de uma grande rede de fast-food, que não quis se identificar, afirmou que o aplicativo faz promoções em que oferece desconto de 50% sobre o preço do milkshake, por exemplo. "O aplicativo me paga o preço cheio do produto, mas vende pela metade", diz o franqueado. Neste caso, porém, o restaurante não tem prejuízo — embora a venda na sua loja física seja canibalizada, já que o cliente vai optar pelo aplicativo.
"É muito positivo atender aos anseios dos consumidores, assim como gerar novas oportunidades de negócios e fomentar a economia. Mas isso deve ser feito dentro de um modelo sustentável, em que as regras estejam claras e sejam iguais para todos, com transparência", diz a advogada Patrícia Peck, do escritório PG Advogados, uma das pioneiras no estudo do direito digital no Brasil.
Ela lembra que a competição costuma ser acirrada em novos mercados, o que acaba gerando benefício de descontos à clientela no começo, devido à guerra de preços. "Mas se a situação perdurar, gera um canibalismo do sistema, que logo alcança um desvio perigoso", diz Peck, que preside o Instituto iStart de Ética Digital.
Vende quem aparece primeiro
Além dos preços agressivos, uma das maiores queixas dos restaurantes se refere à transparência na exposição do seu negócio na plataforma. Quem aparece primeiro na pesquisa por categoria — lanches, padaria, comida brasileira etc. — tem mais chances de ser escolhido pelo consumidor.
"Na região do metrô São Judas, são cerca de 200 lanchonetes no iFood. Como é feito este ranqueamento? Eles dizem que a exposição depende da nota do restaurante, com base na pontualidade e na avaliação do cliente. Mas eu nunca vi essas informações. Minha lanchonete desabou das cinco primeiras posições para uma das 30 primeiras de uma hora para outra, sem ter recebido reclamação", diz Masironi, ex-Montanha Burger.
Outro restaurante que ficou sem resposta foi o Buffet Lé com Cré, na Lapa, zona oeste de São Paulo. "Para ser mais competitivo, queria me tornar um restaurante com frete grátis, como vários que aparecem na plataforma, porque o iFood cobrava R$ 6,90 do meu cliente pela entrega. Eu perguntei o que teria que fazer, mas eles nunca me responderam", diz Ruy da Silva Elentério, sócio do Lé com Cré.
Para aproveitar a ociosidade do buffet durante a semana, ele passou a servir almoço por quilo no restaurante, que tem capacidade para 80 pessoas. Mas, no último ano, empresas do entorno fecharam as portas e Elentério decidiu partir para o delivery, na tentativa de aquecer as vendas. Preparou fotos, cardápio e treinou pessoal. "Fiquei três meses no iFood e não vendi nada", diz.
"A gente foi atrás por causa da superpropaganda da marca, já que eles aparecem até na novela da Globo. Achamos que o negócio iria bombar, era nossa chance de atender além dos 500 metros, que é a distância média que alguém caminha para almoçar. Mas foi só ilusão", diz Elentério, que fechou o restaurante por quilo no fim de dezembro, para se concentrar apenas no buffet infantil. Demitiu três funcionários.
Na opinião do especialista em direito digital Renato OpiceBlum, do OpiceBlum, Bruno, Abrusio & Vainzof Advogados, a prática do iFood pode configurar abuso de poder econômico, caso seja comprovado que o aplicativo vem prejudicando a operação dos restaurantes. "Quando o propósito do investimento é eliminar pequenos parceiros, há concorrência desleal e dumping", diz o advogado, professor do Insper, onde coordena os cursos de proteção de dados e direito digital.
A questão de como se dá o ranqueamento dentro da plataforma, crucial para as vendas, foi levantada junto a iFood, Rappi e UberEats. Todos disseram que a ordem é determinada pela "inteligência artificial" (veja mais abaixo).
m resposta à reportagem, o iFood afirmou que os parceiros costumam apresentar 50% de crescimento nos primeiros seis meses cadastrados da plataforma. O iFood diz que "está sempre disposto a ouvir os seus parceiros e fazer melhorias em seus processos para atendê-los com mais eficiência". Segundo o iFood, os restaurantes contam com "ferramentas de inteligência de negócio" para melhorar as vendas, um time que oferece as primeiras orientações e uma equipe de pós-venda.
Achamos que o negócio iria bombar, era nossa chance de atender além dos 500 metros, que é a distância média que alguém caminha para almoçar. Mas foi só ilusão', diz Elentério — Foto: BBC
Cozinhas que ninguém vê
Fundado em 2011, o iFood faz parte do seleto grupo de "unicórnios" do país — como são chamadas as startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão. No final de 2018, o aplicativo recebeu um aporte de US$ 500 milhões, a maior rodada de investimentos já obtida por uma empresa na América Latina. A previsão era aplicar o montante, cerca de R$ 2 bilhões, até o fim de 2019.
Brasileiro, com operações no México e na Colômbia, o iFood é líder no mercado de entrega de comida no país, à frente dos rivais Rappi, UberEats e da novata 99 Food. Entre janeiro e setembro de 2019, realizou 159,3 milhões de entregas, uma média de 18 milhões de pedidos por mês, o que representa um crescimento de quase 50% sobre 2018. No período, 86 mil entregadores atenderam a 886 cidades no Brasil e na América Latina.
Todo esse poder de fogo abriu o apetite para novas empreitadas: a criação de "darkkitchens", ou restaurantes virtuais, voltados apenas para o delivery. A aposta não é exclusividade do iFood: Rappi e UberEats também enveredaram por esse caminho, como uma maneira de explorar o enorme "big data" à sua disposição.
Funciona assim: a partir da sua base de dados, os serviços de entrega de comida detectam onde existe uma grande demanda por determinado tipo de produto. Elegem parceiros para abrir um restaurante naquela região, em regime de exclusividade — normalmente, os restaurantes que mais vendem na plataforma.
O aplicativo indica o melhor local para montar a "cozinha virtual" — o mesmo espaço, inclusive, pode reunir várias cozinhas diferentes (massa, pizza, sushi, hambúrguer etc), uma espécie de coworking das cozinhas, atendendo a um só aplicativo.
O empresário entra com o investimento para equipar o espaço, enquanto o aplicativo se encarrega de fazer toda a propaganda, muitas vezes criando uma marca específica, que o cliente só vai encontrar na sua plataforma.
Essa marca tem visibilidade privilegiada e costuma estar à frente dos outros restaurantes. Ao dar as ordens na cozinha, os aplicativos conseguem ter o controle sobre todo o processo e negociar melhor as margens de cada etapa.
"Para mim, o fato de eu não aderir às promoções malucas do iFood fez as minhas vendas caírem de uma hora para outra no delivery", diz Masironi, ex-Montanha Burger. "Quem não entra no esquema deles, fica de escanteio. Eles privilegiam as darkkitchens que ajudam a montar".
Sobre o Loop, o iFood afirma ter iniciado testes em novembro de 2018, "e o serviço foi desenvolvido com o suporte de nutricionistas e chefs consultores para oferecer um cardápio balanceado, variado e de qualidade a preços acessíveis". "O modelo de operação do Loop traz rentabilidade aos restaurantes parceiros, que aproveitam melhor seus recursos, e também para as demais pontas do ecossistema"
O aplicativo diz que as refeições são entregues lacradas e com as informações do restaurante. Mas não informa quais os critérios para a escolha do parceiro.
Alexandre Sampaio Padovani, dono do restaurante Hollyfood no Itaim Bibi, zona sudoeste de São Paulo, desistiu de participar das promoções semanais propostas pelo iFood. "Quando eu entrava na promoção, a média de pedidos passava de seis para 20 no dia, mas eu não tinha lucro", diz.
Se em um primeiro momento ele encarou o custo como marketing, acabou deixando de fazê-lo. Apesar de mais do que triplicar o número de pedidos no dia, a promoção não agregava novos clientes, uma vez que a sua média diária de vendas permanecia a mesma.
"No iFood, o que compensa para mim é o cliente do salão que paga com o QR Code do aplicativo", afirma Padovani. O cliente do iFood que usa o QR Code para pagar seus pedidos acumula pontos, que podem ser usados como desconto tanto nos restaurantes físicos conveniados quanto no próprio aplicativo, com exceção do Loop.
"O valor da compra pelo QR Code entra para mim em dois dias, muito mais rápido do que no voucher ou nos cartões de débito e crédito, que demoram 30 dias para me pagar", diz.
Cinco reais é o preço de um salgado. Como a gente vai competir com isso? Como ter lucro e servir uma refeição decente a R$ 10, sem taxa de entrega?', pergunta Alexandre Bassoli — Foto: BBC
Restaurante fora de área
Outra reclamação comum à maioria dos restaurantes ouvidos pela reportagem é o seu status dentro da plataforma: muitos aparecem para o consumidor como "fechados" ou com "área de atendimento reduzida", mas estão operando normalmente. "Se a área está bombando e não tem motoqueiro suficiente para fazer as entregas, o iFood tira o restaurante da área ou reduz a sua atuação", diz Masironi.
Alexandre Bassoli, do Bassa Bar e Restaurante, achou estranho quando consultou a visibilidade do seu estabelecimento no iFood em novembro. Em um dia de semana, pouco depois do meio-dia, o Bassa apareceu como "aberto — com área de entrega reduzida". O estabelecimento, porém, operava normalmente. A restrição se manteve ao longo da semana.
Quando questionou o aplicativo, recebeu a seguinte resposta, dentro da plataforma: "A logística iFood, quando verifica uma alta demanda na região, como prevenção para o próprio estabelecimento, reduz o raio de atendimento ou até mesmo pode indisponibilizá-lo momentaneamente ou por um curto período a fim de o restaurante não sofrer avaliações ou receber notas baixas decorrentes de possíveis atrasos. Esta operação logística é automática do sistema".
"Não tem cabimento essa resposta, sondei o meu principal concorrente na região e ele também estava vendendo pouco no delivery", diz Bassoli, que afirma que o problema se repete sistematicamente com o Bassa. "No iFood, leva vantagem na exposição quem vende comida de graça. Eles subsidiam os pratos, se tornaram nossos concorrentes."
Jane Bassoli reclama do ritmo ditado ao restaurante. "Eles determinam o tempo entre o pedido e a entrega. Mas como produzir e levar uma feijoada ou um bife à parmegiana em 25 minutos?", diz ela, que também aponta a difícil comunicação com o aplicativo, restrita a mensagens dentro da plataforma, e o sistema de pontuação. "Eu não tenho o contato do cliente, não sei se as avaliações que recebo são de gente que realmente consumiu o meu produto."
Encomendas que nunca chegam ao destino
Para Michel Khodair, até os entregadores do iFood complicam o relacionamento da plataforma com os restaurantes. "Um minuto depois que entra o pedido na plataforma, o motoboy chega. Estamos preparando os pratos, em um prazo super apertado para o nosso modelo de negócio, e os entregadores ficam enviando mensagem ao aplicativo, dizendo que estamos atrasados", diz o empresário, dono do Marilyn Restaurante, no Tatuapé, zona leste de São Paulo. "Isso prejudica a nossa nota no aplicativo e a exposição do restaurante cai."
Com pratos à la carte, o Marilyn é obrigado a vender mais caro na plataforma do que no salão, para compensar todos os gastos extras com o delivery — embalagem, lacre, sacolas, fora os 27% que vão para o iFood. "Alguns clientes falam que é mais barato pegar um Uber e vir comer no salão do que pedir minha comida pelo iFood".
Khodair decidiu sair da plataforma no começo deste ano e contratou um serviço particular de entregas. "Estou voltando à moda antiga", diz ele, que nem quis testar o serviço dos concorrentes Rappi e UberEats.
Todos os empresários ouvidos pela reportagem já contrataram motoboys particulares para o delivery, mas na maioria das vezes se queixaram de falta de profissionalismo e pontualidade — daí resolveram aderir ao iFood. E encontraram novos problemas envolvendo os entregadores. "Já tive que pegar um táxi para entregar um pedido feito pelo iFood por um cliente da pizzaria, que acabou entrado em contato comigo por estranhar a demora", diz Rose Halphen, dona da Pedaço da Itália Pizzaria, na Lapa, zona oeste de São Paulo. A pizza encomendada pelo iFood nunca chegou ao destino.
Problemas com entregadores não são exclusivos do iFood — mesmo porque um mesmo prestador de serviço pode trabalhar para dois ou três aplicativos ao mesmo tempo.
Christiane Chaves, dona da loja de doces Sweeter, na zona sul da capital, foi protagonista de um caso esdrúxulo: uma encomenda de bolo e doces foi sequestrada por um motoboy do Rappi. "O cliente me conhecia e ligou perguntando sobre a demora na entrega. A festa já iria começar e nada do bolo e dos doces", lembra Christiane. "Pouco depois, o motoboy me ligou e disse que só faria a entrega se eu depositasse uns R$ 20 reais de gorjeta para ele na plataforma. Não tive opção, fiz o que ele queria".
Já com um entregador do iFood, um bolo da Sweeter também sumiu no meio do caminho. "O surreal neste caso foi que o iFood me reembolsou o valor do bolo, que nunca chegou para o cliente, mas me cobrou a taxa de entrega, que não foi feita", diz ela, que também viu sua demanda na plataforma desabar ao longo do último ano.
"Antes, eu entregava quatro ou cinco bolos por dia pelo iFood. Depois passei a vender dois por semana", afirma. A empresária desistiu do aplicativo e também do Rappi e UberEats, cujas taxas considera ainda mais caras que as do concorrente. "Fechei contrato com um motoboy, pago por quilômetro de distância. E repasso a taxa para o cliente", diz.
Para Alexandre Lescovar, da Oh Café, que vende marmitas congeladas via delivery em Perdizes, zona oeste da capital paulista, a saída foi contratar um sistema de entregas sem comissionamento. Por meio do Apetite, ele paga R$ 11 por pedido e a taxa é repassada ao cliente. "Eu tive uma experiência muito ruim com o iFood", diz. "Eu nunca tinha feito delivery e eles não deram qualquer apoio ou orientação, os primeiros pedidos chegaram revirados para os clientes, eu não sabia qual a embalagem adequada", diz.
Ótimo para o cliente, péssimo para o restaurante
Enquanto dava entrevista por telefone à reportagem, Christiane Chaves, dona da loja de doces Sweeter, esperava a entrega do seu lanche, encomendado pelo iFood. Ela desistiu de contratar o serviço para entregar seus bolos, mas continua com o aplicativo instalado no seu celular. "Quero comer um hambúrguer e vêm 800 opções na minha tela. Pego a primeira que aparece. O iFood é ótimo para o cliente, mas acaba com o empresário", diz ela. "Se eu quisesse ter uma margem de lucro, pagando a entrega e os gastos com o delivery, teria que cobrar R$ 60 por um bolo de laranja. Nada justifica esse preço."
Christiane se incomodava especialmente com a falta de contato com o cliente — o consumidor sabe de quem está comprando, mas o restaurante nunca sabe para quem está vendendo. A identificação do comprador só fica visível para o restaurante durante o período da entrega.
Em um ramo em que a fidelidade à marca depende principalmente do bom atendimento, a falta de contato com a clientela prejudica a operação. "Já tiramos do ar determinados pratos no dia, mas a plataforma os manteve disponíveis. Os pedidos foram feitos e virou uma bagunça", diz Michel Khodair, do Marylin Restaurante.
"Não conseguimos falar diretamente com o cliente, tem que ser via atendente do iFood, que entra em contato com o consumidor, e depois retorna para nós, para informar se vamos seguir ou não com o pedido", afirma. "Nesse ínterim, chega o motoboy para controlar o tempo, dizendo que estamos atrasados, o que vai diminuir nossa pontuação no aplicativo. Tudo isso em meio à correria do serviço no salão. É tudo muito desgastante."
De quem é o cliente?
Segundo o advogado especializado em direito digital Renato OpiceBlum, o aplicativo poderia pedir o aval do cliente para compartilhar as suas informações com o restaurante, seguindo a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), que vai entrar em vigor em agosto deste ano. "A lei não veda o compartilhamento dessas informações, que devem ser uma escolha do cliente", diz.
Para a também especialista em direito digital Patrícia Peck, o advento dos aplicativos e plataformas digitais permitiu aumentar a inteligência de dados e conhecer mais o cliente. "Mas a questão que fica é: de quem são estes dados?", diz ela. "Para fins jurídicos, a relação de clientela sempre foi considerada um ativo empresarial, aquilo que pode inclusive compor com o ponto comercial e a marca o valor do negócio.
O iFood diz exigir, em contrato, que 'os estabelecimentos cumpram todos os requisitos legais necessários estabelecidos pelo poder público, responsável pela fiscalização' — Foto: GettyImages via BBC
Segundo ela, com a nova LGPD, os dados pessoais são do próprio titular. Na relação com o restaurante, o consumidor pode consentir que suas informações sejam tratadas pelo estabelecimento. "Mas, a partir do momento em que a relação passou a ter um intermediário, no caso, o aplicativo, há a possibilidade legítima de tanto a plataforma ter a informação do cliente, pela relação direta com este, como o restaurante, se isso ficar estabelecido em contrato e o consumidor for avisado sobre o compartilhamento, sempre resguardando a sua privacidade", diz Patrícia Peck. Isso significa tratar os dados de maneira estatística, anônima, não individualizada.
É por meio desse tratamento de dados que os aplicativos chegaram à instalação das cozinhas virtuais, as "darkkitchens", criadas em parceria com alguns estabelecimentos. Neste ponto, mais uma vez, é fundamental a transparência, diz Peck.
"Quando as informações da base de dados da plataforma identificam quais os perfis de demanda não atendidos por bairros, isso deve estar disponível para todos os parceiros do aplicativo, gerando oportunidades para quem quiser explorar, o que estimula a livre concorrência", afirma a advogada. "No entanto, se essas informações forem repassadas apenas a um pequeno grupo privilegiado, isso pode ser enquadrado como uma prática de favoritismo e ser entendido como concorrência desleal."
Sem almoço grátis
A Abrasel, associação do setor de bares e restaurantes, já solicitou formalmente aos três principais aplicativos — iFood, Rappi e UberEats — o compartilhamento dos dados dos clientes. "Disseram que estão analisando", afirma Célio Salles. Ele avalia que os grandes serviços de delivery geram impacto direto sobre o setor, ao afetarem sistema de pagamentos, tecnologia e hábitos do consumidor.
"O iFood já declarou que seu objetivo é fornecer comida a um preço mais acessível. É uma meta muito nobre, mas vai ser atingida às custas de quem?", questiona Salles.
Ao espremer ou até aniquilar a margem de lucro dos restaurantes parceiros, investir em darkkitchens que ninguém sabe onde estão, aceitar na plataforma qualquer fornecedor com CNPJ, sem exigir as licenças da Vigilância Sanitária, a competição não está sendo fomentada em bases iguais, diz o conselheiro da Abrasel. "Quem se responsabiliza pelo que é entregue ao consumidor? Os aplicativos deveriam ser corresponsáveis pelo que vendem. Mas na maioria das vezes o cliente não recebe nem sequer a nota fiscal do que comprou", afirma.
Na opinião de Peck, as parcerias entre as plataformas e os negócios tradicionais podem trazer grandes resultados para todos os envolvidos, incluindo os consumidores, mas é preciso cuidado para evitar abusos. "Uma coisa é fomentar o surgimento de cozinhas voltadas para entregas, outra coisa é estimular um modelo de cozinha clandestina que não esteja cumprindo a legislação de vigilância sanitária, nem pagando impostos."
A especialista ressalta que a sociedade vive um momento de inovação em várias frentes e algumas das novas tecnologias são disruptivas. O modelo de negócios dos aplicativos de entrega de comida deve respeitar o previsto na lei 12.529/2011, de Defesa da Concorrência, especialmente o artigo 36, que define crimes contra a ordem econômica, como prática de preço predatório, venda casada, abuso de posição dominante e criação de dificuldades ao concorrente.
"Para ser um modelo sustentável, saudável, duradouro, precisa ser bom para todos, consumidores e a livre concorrência", diz Peck. "Com o aumento potencial do lucro, sempre vem a reboque o aumento da responsabilidade."
Com a palavra, os aplicativos
Os principais aplicativos de entrega de comida no país — iFood, Rappi e UberEats — foram questionados pela reportagem acerca das queixas dos restaurantes.
A reportagem testou o serviço dos três aplicativos. Nenhuma das entregas veio com cupom fiscal. Quando questionados a respeito, as empresas foram rápidas em responder ao cliente, via telefone ou e-mail. Em qualquer um dos casos, disseram que isso é uma responsabilidade do restaurante.
O iFood diz exigir, em contrato, que "os estabelecimentos cumpram todos os requisitos legais necessários estabelecidos pelo poder público, responsável pela fiscalização". Mas, no aplicativo, basta informar um CNPJ para fazer o cadastro.
A empresa diz que, ao personalizar a experiência do consumidor por meio da inteligência artificial, há variação no ranqueamento dos restaurantes na plataforma. Caso o restaurante não consiga atender o tempo de preparo que ele mesmo determinou, pode interromper a venda. "O último recurso é [o iFood] ajudar, fechando o estabelecimento momentaneamente, para evitar que isso impacte a própria operação e avaliação do restaurante, bem como a experiência dos clientes."
Segundo o aplicativo, cerca de 30% dos restaurantes utilizam o modelo em que a plataforma conecta os entregadores que fazem as entregas. "Nesse caso, os entregadores podem informar o iFood sobre possíveis atrasos do restaurante pelo chat no próprio aplicativo, ou entrar em contato com o cliente e/ou restaurante por meio do app".
A Rappi, por sua vez, não informa quais os critérios para a exposição dos restaurantes dentro da plataforma e como se dá o ranqueamento dentro da categoria. "Por questões estratégicas de negócio, a Rappi não divulga essa informação", diz. A empresa respondeu o mesmo sobre o que um restaurante precisa fazer para obter a entrega grátis. A respeito do percentual cobrado sobre os pedidos, diz que o "valor varia de acordo com a negociação com cada estabelecimento".
Sobre os critérios para escolha de um parceiro em uma darkkitchen, a Rappi diz que se baseia em três modelos: os restaurantes que estão com um bom desempenho, mas cujas cozinhas já não suportam tanto a demanda; os que estão bem estabelecidos em um bairro, mas ainda não conseguem chegar a outras regiões; e novos estabelecimentos com alto potencial de crescimento, que ainda não possuem condições financeiras para investir em uma ampliação.
A empresa afirma não solicitar a confirmação de regularização do restaurante junto à Vigilância Sanitária por entender que "essa é uma obrigação e uma prerrogativa dos estabelecimentos comerciais para operar". Segundo a Rappi, o endereço das darkkitchens é divulgado. "Elas aparecem no aplicativo na categoria 'cozinhas exclusivas', dentro do botão 'Restaurantes' e, quando o cliente faz o pedido, consegue ver o endereço da DK no mapa de entrega." A reportagem, porém, não conseguiu visualizar essa informação.
De acordo com o UberEats, as pequenas e médias empresas são 70% da sua base. Segundo a empresa, as taxas sobre os pedidos são negociadas caso a caso, e "nelas já estão inclusas a taxa de cartão de crédito, a logística através dos nossos restaurantes parceiros e toda tecnologia do algoritmo e inteligência artificial da UberEats".
O aplicativo diz oferecer aos restaurantes insights baseados nos dados que coletou, como "oportunidade de incremento ou variação de seus cardápios e de suas cozinhas".
"Por meio da inteligência artificial, a empresa identifica oportunidades como as culinárias mais procuradas em cada região e propõe diálogos com empreendedores parceiros", diz a empresa a respeito da instalação das darkkitchens, sem informar quais são os critérios para a seleção desses restaurantes. "Temos analisado cuidadosamente as oportunidades do setor e trabalhado junto com nossos parceiros para ampliar esse modelo", afirma.
No que se refere às normas da Vigilância Sanitária, a UberEats diz que, "ao se inscrever na plataforma, o restaurante atesta estar de acordo com essas exigências e é responsável pela manutenção de todas as permissões
Como apps de entrega estão levando pequenos restaurantes à falência
Como
apps de entrega estão levando pequenos restaurantes à
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Após levantar US$ 500 milhões, maior aplicativo de entrega de
comida do país investe em promoções agressivas, impede acesso a clientes e
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Promoções agressivas de aplicativos geram
queixas de restaurantes menores e acusações de dumping — Foto: Darlan
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Aos 49 anos, Ricardo
Masironi desistiu de empreender. Desde novembro, o
ex-dono de hamburgueria se tornou cozinheiro de uma
cervejaria artesanal em Moema, zona sul de São Paulo.
Masironi havia criado a
Montanha Burger em 2016 e viu a chance de prosperar a partir do serviço de
entrega de comida iFood, que
estava expandindo as suas operações na mesma época.
Foi uma decisão
acertada: com "propaganda" garantida por parte do parceiro de delivery, a Montanha Burger, que tinha um pequeno salão
próximo ao metrô São Judas, também na zona sul da capital, chegou a despachar
90 entregas por dia, metade da sua demanda diária, com uma média de R$ 55 por
pedido. Nada mau para um negócio de pequeno porte.
Mas, no começo de
2019, algo começou a dar errado: os pedidos deixaram de aparecer de uma hora
para outra. Não foi uma redução gradual, fruto de um possível aumento de
competição. Nem uma mudança de cardápio ou receita, que permaneceram exatamente
os mesmos.
Masironi sequer teve a
chance de sondar a clientela para saber o que estava acontecendo: no final de
2018, o iFood já havia
deixado de fornecer o contato dos clientes aos restaurantes. A partir de então,
o consumidor passou a ser do serviço de entrega — não importa quem faça a
comida.
"Com o tempo, o
iFood mudou radicalmente o
atendimento aos restaurantes", diz Masironi, que
acabou fechando o salão em agosto do ano passado. Manteve apenas o delivery e enveredou pelos lanches mais baratos, vendidos a
R$ 9,50.
Mas seus produtos não eram exibidos na seção de comida barata do
iFood, de até R$ 10.
Questionou o aplicativo, mas não obteve resposta conclusiva. Sem pedidos, Masironi não suportou os custos e encerrou definitivamente
a operação em novembro.
O caso da Montanha
Burger não é isolado. A reportagem conversou com outros oito donos de
restaurantes, cafés, bares e lanchonetes que colecionam mais dissabores que
vantagens após contratar os serviços do iFood.
As principais
queixas se referem às "promoções malucas" propostas pelo aplicativo,
do tipo "compre um lanche e ganhe outro", ou a oferta sistemática de
cupons de desconto de R$ 10, que acaba com as margens de lucro dos
estabelecimentos.
"A minha porção
de calabresa custa R$ 14. Eu tenho que pagar 27% sobre o preço do pedido para o
iFood. Como é que eu vou dar
um desconto de R$ 10? Vai me sobrar o quê?", questiona Jane Bassoli, sócia do marido Alexandre Bassoli
no Bassa Bar e Restaurante, na zona oeste de São Paulo.
Questionado pela
reportagem, o iFood não
respondeu se, ao formular as suas promoções, que são as que mais chamam a
atenção dos consumidores, leva em conta o percentual de lucro dos restaurantes.
Refeição
a R$ 4,99
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Sem pedidos, Ricardo Masironi
não suportou os custos e encerrou definitivamente a operação em novembro —
Foto: BBC
Na percepção dos
estabelecimentos, a relação com o iFood
começou a piorar na segunda metade do ano passado, quando o aplicativo investiu
no Loop, o seu próprio "restaurante". Por meio do Loop, o cliente
programa a compra do almoço na véspera ou até as 11h
do mesmo dia.
A primeira refeição
é vendida a R$ 4,99, sem taxa de entrega. A partir da segunda refeição, o preço
é R$ 9,99, também com entrega grátis. "Cinco reais é o preço de um salgado.
Como a gente vai competir com isso? Como ter lucro e servir uma refeição
decente a R$ 10, sem taxa de entrega?", pergunta Alexandre Bassoli.
A reportagem apurou
que, no caso do Loop, o iFood
faz acordos com restaurantes que vendem comida por quilo. O cardápio do dia é
definido previamente e, na véspera, o iFood
encomenda ao restaurante a quantidade que será entregue, com base na demanda já
agendada. Na prática, o aplicativo compra o aumento da capacidade do
restaurante, a quem paga antecipado.
Na visão da
Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), a prática indica
dumping — quando um fornecedor põe à venda um produto a um preço muito inferior
ao do mercado. "O delivery é um ponto chave para
a competitividade dos restaurantes, cada vez mais os clientes buscam
conveniência", diz Célio Salles, membro do conselho de administração
nacional da Abrasel. "Mas o aplicativo não pode praticar subsídio na venda
dos produtos, o que acaba deturpando o equilíbrio do mercado", afirma.
A empresa se
defende. "O iFood
esclarece que age de acordo com a legislação aplicável na operação do Loop e em
suas demais atividades e que não compactua com qualquer tipo de prática ilegal.
O modelo de negócio desse serviço tem como base a utilização da capacidade
produtiva ociosa de restaurantes e o agendamento de pedidos combinado à
logística de entrega eficiente, o que resulta em refeições a preços mais
acessíveis."
A prática não
envolve apenas os pequenos restaurantes. O franqueado de uma grande rede de fast-food, que não quis se identificar, afirmou que o
aplicativo faz promoções em que oferece desconto de 50% sobre o preço do milkshake,
por exemplo. "O aplicativo me paga o preço cheio do produto, mas vende
pela metade", diz o franqueado. Neste caso, porém, o restaurante não tem
prejuízo — embora a venda na sua loja física seja canibalizada, já que o
cliente vai optar pelo aplicativo.
"É muito
positivo atender aos anseios dos consumidores, assim como gerar novas
oportunidades de negócios e fomentar a economia. Mas isso deve ser feito dentro
de um modelo sustentável, em que as regras estejam claras e sejam iguais para
todos, com transparência", diz a advogada Patrícia Peck, do escritório PG
Advogados, uma das pioneiras no estudo do direito digital no Brasil.
Ela lembra que a competição
costuma ser acirrada em novos mercados, o que acaba
gerando benefício de descontos à clientela no começo, devido à guerra de
preços. "Mas se a situação perdurar, gera um
canibalismo do sistema, que logo alcança um desvio perigoso", diz Peck,
que preside o Instituto iStart de Ética Digital.
Vende
quem aparece primeiro
Além dos preços
agressivos, uma das maiores queixas dos restaurantes se refere à transparência
na exposição do seu negócio na plataforma. Quem aparece primeiro na pesquisa
por categoria — lanches, padaria, comida brasileira etc. — tem mais chances de
ser escolhido pelo consumidor.
"Na região do
metrô São Judas, são cerca de 200 lanchonetes no iFood. Como é feito este ranqueamento?
Eles dizem que a exposição depende da nota do restaurante, com base na
pontualidade e na avaliação do cliente. Mas eu nunca vi essas informações.
Minha lanchonete desabou das cinco primeiras posições para uma das 30 primeiras
de uma hora para outra, sem ter recebido reclamação", diz Masironi, ex-Montanha Burger.
Outro restaurante
que ficou sem resposta foi o Buffet Lé com Cré, na
Lapa, zona oeste de São Paulo. "Para ser mais competitivo, queria me
tornar um restaurante com frete grátis, como vários que aparecem na plataforma,
porque o iFood cobrava R$
6,90 do meu cliente pela entrega. Eu perguntei o que teria que fazer, mas eles
nunca me responderam", diz Ruy da Silva Elentério,
sócio do Lé com Cré.
Para aproveitar a
ociosidade do buffet durante a semana, ele passou a
servir almoço por quilo no restaurante, que tem capacidade para 80 pessoas.
Mas, no último ano, empresas do entorno fecharam as portas e Elentério decidiu partir para o delivery,
na tentativa de aquecer as vendas. Preparou fotos, cardápio e treinou pessoal.
"Fiquei três meses no iFood
e não vendi nada", diz.
"A gente foi
atrás por causa da superpropaganda da marca, já que
eles aparecem até na novela da Globo. Achamos que o
negócio iria bombar, era nossa chance de atender além
dos 500 metros, que é a distância média que alguém caminha para almoçar. Mas
foi só ilusão", diz Elentério, que fechou o
restaurante por quilo no fim de dezembro, para se concentrar apenas no buffet
infantil. Demitiu três funcionários.
Na opinião do
especialista em direito digital Renato OpiceBlum, do OpiceBlum, Bruno, Abrusio & Vainzof
Advogados, a prática do iFood
pode configurar abuso de poder econômico, caso seja comprovado que o aplicativo
vem prejudicando a operação dos restaurantes. "Quando o propósito do
investimento é eliminar pequenos parceiros, há concorrência desleal e
dumping", diz o advogado, professor do Insper,
onde coordena os cursos de proteção de dados e direito digital.
A questão de como se
dá o ranqueamento dentro da plataforma, crucial para
as vendas, foi levantada junto a iFood,
Rappi e UberEats. Todos disseram que a ordem é determinada pela
"inteligência artificial" (veja mais abaixo).
m resposta à
reportagem, o iFood afirmou
que os parceiros costumam apresentar 50% de crescimento nos primeiros seis
meses cadastrados da plataforma. O iFood
diz que "está sempre disposto a ouvir os seus parceiros e fazer melhorias
em seus processos para atendê-los com mais eficiência". Segundo o iFood, os restaurantes contam com
"ferramentas de inteligência de negócio" para melhorar as vendas, um
time que oferece as primeiras orientações e uma equipe de pós-venda.
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Achamos que o negócio iria bombar,
era nossa chance de atender além dos 500 metros, que é a distância média que
alguém caminha para almoçar. Mas foi só ilusão', diz Elentério
— Foto: BBC
Cozinhas
que ninguém vê
Fundado em 2011, o iFood faz parte do seleto grupo de
"unicórnios" do país — como são chamadas as startups avaliadas em
mais de US$ 1 bilhão. No final de 2018, o aplicativo recebeu um aporte de US$
500 milhões, a maior rodada de investimentos já obtida por uma empresa na
América Latina. A previsão era aplicar o montante, cerca de R$ 2 bilhões, até o
fim de 2019.
Brasileiro, com
operações no México e na Colômbia, o iFood
é líder no mercado de entrega de comida no país, à frente dos rivais Rappi, UberEats
e da novata 99 Food. Entre janeiro e setembro de
2019, realizou 159,3 milhões de entregas, uma média de 18 milhões de pedidos
por mês, o que representa um crescimento de quase 50% sobre 2018. No período,
86 mil entregadores atenderam a 886 cidades no Brasil e na América Latina.
Todo esse poder de
fogo abriu o apetite para novas empreitadas: a criação de "darkkitchens", ou
restaurantes virtuais, voltados apenas para o delivery.
A aposta não é exclusividade do iFood:
Rappi e UberEats também enveredaram por esse caminho, como uma maneira
de explorar o enorme "big data" à sua disposição.
Funciona assim: a
partir da sua base de dados, os serviços de entrega de comida detectam onde
existe uma grande demanda por determinado tipo de produto. Elegem parceiros
para abrir um restaurante naquela região, em regime de exclusividade —
normalmente, os restaurantes que mais vendem na plataforma.
O aplicativo indica
o melhor local para montar a "cozinha virtual" — o mesmo espaço,
inclusive, pode reunir várias cozinhas diferentes (massa, pizza, sushi,
hambúrguer etc), uma espécie de coworking
das cozinhas, atendendo a um só aplicativo.
O empresário entra
com o investimento para equipar o espaço, enquanto o aplicativo se encarrega de
fazer toda a propaganda, muitas vezes criando uma marca específica, que o
cliente só vai encontrar na sua plataforma.
Essa marca tem
visibilidade privilegiada e costuma estar à frente dos outros restaurantes. Ao
dar as ordens na cozinha, os aplicativos conseguem ter o controle sobre todo o
processo e negociar melhor as margens de cada etapa.
"Para mim, o
fato de eu não aderir às promoções malucas do iFood fez as minhas vendas caírem de uma hora para
outra no delivery", diz Masironi, ex-Montanha
Burger. "Quem não entra no esquema deles, fica de escanteio. Eles
privilegiam as darkkitchens
que ajudam a montar".
Sobre o Loop, o iFood afirma ter iniciado testes
em novembro de 2018, "e o serviço foi desenvolvido com o suporte de
nutricionistas e chefs consultores para oferecer um cardápio balanceado,
variado e de qualidade a preços acessíveis". "O modelo de operação do
Loop traz rentabilidade aos restaurantes parceiros, que aproveitam melhor seus
recursos, e também para as demais pontas do ecossistema"
O aplicativo diz que
as refeições são entregues lacradas e com as informações do restaurante. Mas
não informa quais os critérios para a escolha do parceiro.
Alexandre Sampaio
Padovani, dono do restaurante Hollyfood no Itaim
Bibi, zona sudoeste de São Paulo, desistiu de participar das promoções semanais
propostas pelo iFood.
"Quando eu entrava na promoção, a média de pedidos passava de seis para 20
no dia, mas eu não tinha lucro", diz.
Se em um primeiro
momento ele encarou o custo como marketing, acabou deixando de fazê-lo. Apesar
de mais do que triplicar o número de pedidos no dia, a promoção não agregava
novos clientes, uma vez que a sua média diária de vendas permanecia a mesma.
"No iFood, o que compensa para mim é o
cliente do salão que paga com o QR Code do
aplicativo", afirma Padovani. O cliente do iFood que usa o QR Code
para pagar seus pedidos acumula pontos, que podem ser usados como desconto
tanto nos restaurantes físicos conveniados quanto no próprio aplicativo, com
exceção do Loop.
"O valor da
compra pelo QR Code entra para mim em dois dias,
muito mais rápido do que no voucher ou nos cartões de débito e crédito, que
demoram 30 dias para me pagar", diz.
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Cinco reais é o preço de um salgado. Como a
gente vai competir com isso? Como ter lucro e servir uma refeição decente a R$
10, sem taxa de entrega?', pergunta Alexandre Bassoli
— Foto: BBC
Restaurante
fora de área
Outra reclamação
comum à maioria dos restaurantes ouvidos pela reportagem é o seu status dentro
da plataforma: muitos aparecem para o consumidor como "fechados" ou
com "área de atendimento reduzida", mas estão operando normalmente.
"Se a área está bombando e não tem motoqueiro
suficiente para fazer as entregas, o iFood
tira o restaurante da área ou reduz a sua atuação", diz Masironi.
Alexandre Bassoli, do Bassa Bar e Restaurante, achou estranho quando consultou
a visibilidade do seu estabelecimento no iFood em
novembro. Em um dia de semana, pouco depois do meio-dia, o Bassa apareceu como
"aberto — com área de entrega reduzida". O estabelecimento, porém,
operava normalmente. A restrição se manteve ao longo da semana.
Quando questionou o
aplicativo, recebeu a seguinte resposta, dentro da plataforma: "A
logística iFood, quando
verifica uma alta demanda na região, como prevenção para o próprio
estabelecimento, reduz o raio de atendimento ou até mesmo pode indisponibilizá-lo momentaneamente ou por um curto período
a fim de o restaurante não sofrer avaliações ou receber notas baixas
decorrentes de possíveis atrasos. Esta operação logística é automática do
sistema".
"Não tem
cabimento essa resposta, sondei o meu principal concorrente na região e ele
também estava vendendo pouco no delivery", diz Bassoli, que afirma que o problema se repete
sistematicamente com o Bassa. "No iFood,
leva vantagem na exposição quem vende comida de graça. Eles subsidiam os
pratos, se tornaram nossos concorrentes."
Jane Bassoli reclama do ritmo ditado ao restaurante. "Eles
determinam o tempo entre o pedido e a entrega. Mas como produzir e levar uma
feijoada ou um bife à parmegiana em 25 minutos?", diz ela, que também
aponta a difícil comunicação com o aplicativo, restrita a mensagens dentro da
plataforma, e o sistema de pontuação. "Eu não tenho o contato do cliente,
não sei se as avaliações que recebo são de gente que realmente consumiu o meu
produto."
Encomendas
que nunca chegam ao destino
Para Michel Khodair, até os entregadores do iFood complicam o relacionamento da plataforma com os
restaurantes. "Um minuto depois que entra o pedido na plataforma, o
motoboy chega. Estamos preparando os pratos, em um prazo super apertado para o nosso
modelo de negócio, e os entregadores ficam enviando mensagem ao aplicativo,
dizendo que estamos atrasados", diz o empresário, dono do Marilyn
Restaurante, no Tatuapé, zona leste de São Paulo. "Isso prejudica a nossa
nota no aplicativo e a exposição do restaurante cai."
Com pratos à la carte, o Marilyn é obrigado a
vender mais caro na plataforma do que no salão, para compensar todos os gastos
extras com o delivery — embalagem, lacre, sacolas, fora os 27% que vão para o iFood. "Alguns clientes falam que é mais barato pegar
um Uber e vir comer no salão do que pedir minha
comida pelo iFood".
Khodair decidiu sair da
plataforma no começo deste ano e contratou um serviço particular de entregas.
"Estou voltando à moda antiga", diz ele, que nem quis testar o
serviço dos concorrentes Rappi e UberEats.
Todos os empresários
ouvidos pela reportagem já contrataram motoboys particulares para o delivery, mas na maioria das vezes se queixaram de falta de
profissionalismo e pontualidade — daí resolveram aderir ao iFood.
E encontraram novos problemas envolvendo os entregadores. "Já tive que
pegar um táxi para entregar um pedido feito pelo iFood por um cliente da pizzaria, que acabou entrado
em contato comigo por estranhar a demora", diz Rose Halphen,
dona da Pedaço da Itália Pizzaria, na Lapa, zona oeste de São Paulo. A pizza
encomendada pelo iFood nunca
chegou ao destino.
Problemas com
entregadores não são exclusivos do iFood
— mesmo porque um mesmo prestador de serviço pode trabalhar para dois ou três
aplicativos ao mesmo tempo.
Christiane Chaves,
dona da loja de doces Sweeter, na zona sul da
capital, foi protagonista de um caso esdrúxulo: uma encomenda de bolo e doces
foi sequestrada por um motoboy do Rappi. "O
cliente me conhecia e ligou perguntando sobre a demora na entrega. A festa já
iria começar e nada do bolo e dos doces", lembra Christiane. "Pouco
depois, o motoboy me ligou e disse que só faria a entrega se eu depositasse uns
R$ 20 reais de gorjeta para ele na plataforma. Não tive opção, fiz o que ele
queria".
Já com um entregador
do iFood, um bolo da Sweeter também sumiu no meio do caminho. "O surreal
neste caso foi que o iFood
me reembolsou o valor do bolo, que nunca chegou para o cliente, mas me cobrou a
taxa de entrega, que não foi feita", diz ela, que também viu sua demanda
na plataforma desabar ao longo do último ano.
"Antes, eu
entregava quatro ou cinco bolos por dia pelo iFood. Depois passei a vender dois por semana",
afirma. A empresária desistiu do aplicativo e também do Rappi
e UberEats, cujas taxas considera ainda mais caras que as do concorrente.
"Fechei contrato com um motoboy, pago por quilômetro de distância. E
repasso a taxa para o cliente", diz.
Para Alexandre Lescovar, da Oh Café, que vende marmitas congeladas via delivery em Perdizes, zona oeste da capital paulista, a
saída foi contratar um sistema de entregas sem comissionamento. Por meio do
Apetite, ele paga R$ 11 por pedido e a taxa é repassada ao cliente. "Eu
tive uma experiência muito ruim com o iFood",
diz. "Eu nunca tinha feito delivery e eles não deram
qualquer apoio ou orientação, os primeiros pedidos chegaram revirados para os
clientes, eu não sabia qual a embalagem adequada", diz.
Ótimo
para o cliente, péssimo para o restaurante
Enquanto dava
entrevista por telefone à reportagem, Christiane Chaves, dona da loja de doces Sweeter, esperava a entrega do seu lanche, encomendado pelo
iFood. Ela desistiu de
contratar o serviço para entregar seus bolos, mas continua com o aplicativo
instalado no seu celular. "Quero comer um hambúrguer e vêm 800 opções na
minha tela. Pego a primeira que aparece. O iFood é ótimo para o cliente, mas acaba com o
empresário", diz ela. "Se eu quisesse ter uma margem de lucro,
pagando a entrega e os gastos com o delivery, teria
que cobrar R$ 60 por um bolo de laranja. Nada justifica esse preço."
Christiane se
incomodava especialmente com a falta de contato com o cliente — o consumidor
sabe de quem está comprando, mas o restaurante nunca sabe para quem está
vendendo. A identificação do comprador só fica visível para o restaurante
durante o período da entrega.
Em um ramo em que a
fidelidade à marca depende principalmente do bom atendimento, a falta de
contato com a clientela prejudica a operação. "Já tiramos do ar
determinados pratos no dia, mas a plataforma os manteve disponíveis. Os pedidos
foram feitos e virou uma bagunça", diz Michel Khodair,
do Marylin Restaurante.
"Não
conseguimos falar diretamente com o cliente, tem que ser via atendente do iFood, que entra em contato com o
consumidor, e depois retorna para nós, para informar se vamos seguir ou não com
o pedido", afirma. "Nesse ínterim, chega o motoboy para controlar o
tempo, dizendo que estamos atrasados, o que vai diminuir nossa pontuação no
aplicativo. Tudo isso em meio à correria do serviço no salão. É tudo muito
desgastante."
De
quem é o cliente?
Segundo o advogado
especializado em direito digital Renato OpiceBlum, o aplicativo poderia pedir o aval do cliente para
compartilhar as suas informações com o restaurante, seguindo a Lei Geral de
Proteção de Dados (LGPD), que vai entrar em vigor em agosto deste ano. "A
lei não veda o compartilhamento dessas informações, que devem ser uma escolha
do cliente", diz.
Para a também
especialista em direito digital Patrícia Peck, o advento dos aplicativos e
plataformas digitais permitiu aumentar a inteligência de dados e conhecer mais
o cliente. "Mas a questão que fica é: de quem são estes dados?", diz
ela. "Para fins jurídicos, a relação de clientela sempre
foi considerada um ativo empresarial, aquilo que pode inclusive compor com o ponto
comercial e a marca o valor do negócio.
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O iFood
diz exigir, em contrato, que 'os estabelecimentos cumpram todos os requisitos
legais necessários estabelecidos pelo poder público, responsável pela
fiscalização' — Foto: GettyImages
via BBC
Segundo ela, com a
nova LGPD, os dados pessoais são do próprio titular.
Na relação com o restaurante, o consumidor pode consentir que suas informações sejam tratadas pelo estabelecimento. "Mas, a partir do
momento em que a relação passou a ter um intermediário, no caso, o aplicativo,
há a possibilidade legítima de tanto a plataforma ter a informação do cliente,
pela relação direta com este, como o restaurante, se isso
ficar estabelecido em contrato e o consumidor for avisado sobre o
compartilhamento, sempre resguardando a sua privacidade", diz Patrícia
Peck. Isso significa tratar os dados de maneira estatística, anônima, não
individualizada.
É por meio desse
tratamento de dados que os aplicativos chegaram à instalação das cozinhas
virtuais, as "darkkitchens",
criadas em parceria com alguns estabelecimentos. Neste ponto, mais uma vez, é
fundamental a transparência, diz Peck.
"Quando as
informações da base de dados da plataforma identificam quais os perfis de
demanda não atendidos por bairros, isso deve estar disponível para todos os
parceiros do aplicativo, gerando oportunidades para quem quiser explorar, o que
estimula a livre concorrência", afirma a advogada. "No entanto, se
essas informações forem repassadas apenas a um pequeno grupo privilegiado, isso
pode ser enquadrado como uma prática de favoritismo e ser entendido como
concorrência desleal."
Sem
almoço grátis
A Abrasel,
associação do setor de bares e restaurantes, já solicitou formalmente aos três
principais aplicativos — iFood,
Rappi e UberEats — o compartilhamento dos dados dos clientes.
"Disseram que estão analisando", afirma Célio Salles. Ele avalia que
os grandes serviços de delivery geram impacto direto
sobre o setor, ao afetarem sistema de pagamentos, tecnologia e hábitos do
consumidor.
"O iFood já declarou que seu objetivo
é fornecer comida a um preço mais acessível. É uma meta muito nobre, mas vai
ser atingida às custas de quem?", questiona Salles.
Ao espremer ou até
aniquilar a margem de lucro dos restaurantes parceiros, investir em darkkitchens que ninguém sabe
onde estão, aceitar na plataforma qualquer fornecedor
com CNPJ, sem exigir as licenças da Vigilância Sanitária, a competição não está
sendo fomentada em bases iguais, diz o conselheiro da Abrasel. "Quem se
responsabiliza pelo que é entregue ao consumidor? Os aplicativos deveriam ser
corresponsáveis pelo que vendem. Mas na maioria das vezes o cliente não recebe
nem sequer a nota fiscal do que comprou", afirma.
Na opinião de Peck,
as parcerias entre as plataformas e os negócios tradicionais podem trazer
grandes resultados para todos os envolvidos, incluindo os consumidores, mas é
preciso cuidado para evitar abusos. "Uma coisa é fomentar o surgimento de
cozinhas voltadas para entregas, outra coisa é estimular um modelo de cozinha
clandestina que não esteja cumprindo a legislação de vigilância sanitária, nem
pagando impostos."
A especialista
ressalta que a sociedade vive um momento de inovação em várias frentes e
algumas das novas tecnologias são disruptivas. O
modelo de negócios dos aplicativos de entrega de comida deve respeitar o
previsto na lei 12.529/2011, de Defesa da Concorrência, especialmente o artigo
36, que define crimes contra a ordem econômica, como prática de preço
predatório, venda casada, abuso de posição dominante e
criação de dificuldades ao concorrente.
"Para ser um
modelo sustentável, saudável, duradouro, precisa ser bom para todos,
consumidores e a livre concorrência", diz Peck. "Com o aumento
potencial do lucro, sempre vem a reboque o aumento da responsabilidade."
Com
a palavra, os aplicativos
Os principais
aplicativos de entrega de comida no país — iFood, Rappi e UberEats — foram questionados
pela reportagem acerca das queixas dos restaurantes.
A reportagem testou
o serviço dos três aplicativos. Nenhuma das entregas veio com cupom fiscal.
Quando questionados a respeito, as empresas foram rápidas em responder ao
cliente, via telefone ou e-mail. Em qualquer um dos casos, disseram que isso é
uma responsabilidade do restaurante.
O iFood diz exigir, em contrato, que
"os estabelecimentos cumpram todos os requisitos legais necessários
estabelecidos pelo poder público, responsável pela fiscalização". Mas, no
aplicativo, basta informar um CNPJ para fazer o cadastro.
A empresa diz que,
ao personalizar a experiência do consumidor por meio da inteligência
artificial, há variação no ranqueamento dos
restaurantes na plataforma. Caso o restaurante não consiga atender o tempo de
preparo que ele mesmo determinou, pode interromper a venda. "O último
recurso é [o iFood] ajudar,
fechando o estabelecimento momentaneamente, para evitar que isso impacte a
própria operação e avaliação do restaurante, bem como a experiência dos
clientes."
Segundo o
aplicativo, cerca de 30% dos restaurantes utilizam o modelo em que a plataforma
conecta os entregadores que fazem as entregas. "Nesse caso, os
entregadores podem informar o iFood
sobre possíveis atrasos do restaurante pelo chat no próprio aplicativo, ou
entrar em contato com o cliente e/ou restaurante por meio do app".
A Rappi, por sua vez, não informa quais os critérios para a
exposição dos restaurantes dentro da plataforma e como se dá o ranqueamento dentro da categoria. "Por questões
estratégicas de negócio, a Rappi não divulga essa
informação", diz. A empresa respondeu o mesmo sobre o que um restaurante
precisa fazer para obter a entrega grátis. A respeito do percentual cobrado
sobre os pedidos, diz que o "valor varia de acordo com a negociação com
cada estabelecimento".
Sobre os critérios
para escolha de um parceiro em uma darkkitchen, a Rappi diz que se
baseia em três modelos: os restaurantes que estão com um bom desempenho, mas
cujas cozinhas já não suportam tanto a demanda; os que estão bem estabelecidos
em um bairro, mas ainda não conseguem chegar a outras regiões; e novos
estabelecimentos com alto potencial de crescimento, que ainda não possuem
condições financeiras para investir em uma ampliação.
A empresa afirma não
solicitar a confirmação de regularização do restaurante junto à Vigilância
Sanitária por entender que "essa é uma obrigação e uma prerrogativa dos
estabelecimentos comerciais para operar". Segundo a Rappi,
o endereço das darkkitchens
é divulgado. "Elas aparecem no aplicativo na categoria 'cozinhas
exclusivas', dentro do botão 'Restaurantes' e, quando o cliente faz o pedido,
consegue ver o endereço da DK no mapa de entrega." A reportagem, porém,
não conseguiu visualizar essa informação.
De acordo com o UberEats, as pequenas e médias
empresas são 70% da sua base. Segundo a empresa, as taxas sobre os pedidos são
negociadas caso a caso, e "nelas já estão inclusas a taxa de cartão de
crédito, a logística através dos nossos restaurantes parceiros e toda
tecnologia do algoritmo e inteligência artificial da UberEats".
O aplicativo diz
oferecer aos restaurantes insights baseados nos dados que coletou, como
"oportunidade de incremento ou variação de seus cardápios e de suas
cozinhas".
"Por meio da
inteligência artificial, a empresa identifica oportunidades como as culinárias
mais procuradas em cada região e propõe diálogos com empreendedores
parceiros", diz a empresa a respeito da instalação das darkkitchens, sem informar quais são os critérios para a
seleção desses restaurantes. "Temos analisado cuidadosamente as
oportunidades do setor e trabalhado junto com nossos parceiros para ampliar
esse modelo", afirma.
No que se refere às
normas da Vigilância Sanitária, a UberEats diz que, "ao se inscrever na plataforma, o
restaurante atesta estar de acordo com essas exigências e é responsável pela
manutenção de todas as permissões
Enquanto o Brasil faturava sua primeira Copa do Mundo, Mao Tsé-Tung instituía o Grande Salto Adiante, um programa de governo que tinha a pretensão de transformar a China numa nação desenvolvida acelerando a coletivização do campo.
Saca só:
Uma das primeiras ações foi a Campanha das Quatro Pragas, que consistia em eliminar os inimigos da produtividade do campo: ratos, moscas, mosquitos e pardais - esses últimos, segundo Pequim, capazes de comer, cada um (e de roubar dos camponeses) quatro quilos de comida por ano.
Em pouco tempo, chineses das mais remotas cidades passaram a usar tudo o que tinham à disposição para matar os animais.
A luta contra os pardais foi a mais intensa. A conta oficial era tentadora: cada milhão de pardais mortos representava comida suficiente para 60 mil pessoas.
Ninhos foram derrubados, ovos quebrados, filhotes assassinados.
Mobilizados, adultos e crianças batiam panelas para assustar os pássaros, fazendo com que inúmeros pardais morressem de exaustão. Quando a tática não funcionava, chineses simplesmente atiravam para onde enxergassem.
O plano não funcionou.
Em 1960, cientistas descobriram que a dieta dos pardais era composta por 3/4 de insetos e apenas 1/4 de grãos. Como não havia pardais disponíveis, o número de gafanhotos aumentou drasticamente. As colheitas começaram a diminuir, em vez de aumentar.
Pra conter a tragédia, Mao chegou a importar 250 mil pardais da União Soviética.
Era tarde demais.
Em questão de meses, 1 bilhão de pássaros morreram, enchendo o campo de insetos.
O resultado do experimento foi um capítulo da História conhecido como Grande Fome Chinesa.
Entre 1958 e 1961, graças às políticas desastrosas do Partido Comunista Chinês, 45 milhões de chineses morreram de fome.
Essa aqui é a curva global de mortes entre 1950 a 2017.
Essa ponta completamente solta na virada para os anos 1960 é a Grande Fome Chinesa.
Em míseros três anos, antes mesmo do Brasil faturar seu segundo caneco em Copas do Mundo, Mao Tsé-Tung havia entrado para a História.
A estupidez de suas ideias políticas, somada à sua completa indiferença à natureza humana, o transformaram no maior genocida do século vinte.
Em 1999, o prefeito de Nova York tentou impedir o Museu do Brooklyn de realizar exposição com obras polêmicas, incluindo uma que ofendia a sensibilidade religiosa de cristãos.
O museu não cedeu, e o prefeito cortou as verbas concedidas pelo município. Floyd Abrams liderou a defesa do museu perante a corte federal. O resultado foi uma vitória acachapante.
O governo não tem o direito de censurar trabalhos que considere moralmente impróprios ou que agridam à religiosidade. Nenhuma autoridade pode determinar o que seria aceitável em temas de opinião. As verbas para o museu deveriam ser integralmente preservadas.
Tão importante quanto a defesa feita por Abrams foi o que ele se recusou a fazer. Antes do julgamento, ele tomou conhecimento de um trecho do diário de Goebbels, que assumira a gestão da cultura em razão de uma exposição que desagradara a Hitler:
"Caso os vienenses contestem, todos os subsídios do Reich serão cortados. Isso, claro, significa a morte da vida cultural de Viena".
Abrams pensou mencioná-lo como exemplo de censura exercida pelo autoritário de plantão. Concluiu, porém, que a analogia com o prefeito seria obviamente falsa em razão das circunstâncias e prejudicaria a defesa do museu.
Na última semana, Mansueto Almeida anunciou sua saída da Secretaria do Tesouro. Alguns aproveitaram para criticá-lo por ter aceitado trabalhar neste governo e resgataram uma expressão de Hannah Arendt: a banalidade do mal.
Arendt, porém, utilizou-a ao escrever sobre o julgamento de Eichmann, o burocrata anódino que organizara o transporte de judeus para campos de concentração.
Podemos repudiar as manifestações do presidente, mas não a democracia que o elegeu. Muitos de nós jamais cogitariam trabalhar neste governo. Outros agem de forma diferente para cuidar da coisa pública. Tema de opinião, não de legalidade.
Mansueto é um servidor público cioso do seu ofício e aberto ao contraditório. Sua serenidade e meticulosidade têm sido essenciais para o debate sobre os dilemas da economia.
Impecavelmente, ele consegue relevar as críticas virulentas e sempre convida ao diálogo, explicando com cuidado os dados e as opções de política pública, mesmo que na contramão do discurso oficial.
O Tesouro Nacional tem alertado sobre problemas que outros prefeririam ignorar. Não há notícia de artifícios contábeis que escondam da sociedade a gravidade das contas públicas, ao contrário do que ocorreu em gestão passada. A cada um o seu quinhão pelos atos que pratica.
A liberdade de expressão deve proteger até mesmo a crítica descabida. O único risco é tornar seus porta-vozes comparáveis ao governo que desprezam.
Um dos fatos de minha vida é que até iniciar meus estudos no Insper minha bagagem cultural não era muito grande: lembro quando um colega de sala me perguntou o que eu tinha achado do “último filme do Tarantino” e eu não fazia ideia do que ele estava falando.
Porém, ao longo da minha infância, tive aoportunidade de ler os livros da saga Harry Potter, com os quais aprendi valiosas lições e que, de alguma forma, contribuíram para moldar o que penso sobre liderança e liberdade.
Afinal, apesar de reconfortante, a história desse mundo mágico, às vezes, não cumpre o objetivo de servir como válvula de escape. Muitos dos ensinamentos presentes na obra de J.K Rowling devem-se ao fato de estes serem provenientes de situações que se assemelham à vida real.
Como grande fã, enquanto organizava meus livros durante a quarentena, senti imensa saudade da saga ao revê-los na estante. Por esse motivo, agora, compartilho com vocês 5 lições que Harry Potter me ensinou sobre liberdade.
[Uma das leis da internet é que após mais de uma década de fim da saga não é spoiler, mas para quem não desfrutou ainda da obra, aqui vai o aviso: o texto contém algumas exposições da narrativa].
1) O valor da igualdade sob a Lei
Na terceira obra, o grande vilão da vez anunciado é Sirius Black. No decorrer dos capítulos, porém, descobrimos sua inocência e simpatizamos com ele, ao ponto de, ao final da quinta obra haver um pouco de suor nos nossos olhos diante do que acontece com ele.
Mas, talvez uma das minhas primeiras compreensões a respeito dos pilares do direito criminal veio daí: os princípios da ampla defesa e contraditório, do devido processo legal, da presunção de inocência… tudo isso foi arbitrariamente negado a Sirius Black. Dessa forma, o personagem passou 12 anos na cadeia por um crime que não cometeu.
Assim como o padrinho, Harry também sofre pela falta de tratamento igualitário sob a Lei no quinto livro, quando vai a julgamento por um ato de legítima defesa. O horário de sua sessão é modificado sem aviso prévio para dificultar que seu advogado não consiga comparecer. Além disso, o discurso do Juiz mostra o absurdo de o réu ser o responsável pela apresentação de provas quanto à sua inocência, e não o contrário.
Lembro de ter raiva ao ler essas páginas, algo natural diante de injustiças. E, nesse sentido, tanto no tribunal quanto em outras ocasiões ao longo da trama, somos alertados sobre a influência de grupos de interesse dentro do governo pela autora e da importância de imparcialidade, isonomia e integridade na administração pública.
2) O perigo da doutrinação ideológica nas escolas
Para controlar o conteúdo ministrado em sala de aula, o primeiro-ministro, Cornélio Fudge, determina a nomeação de Dolores Umbridge como professora de uma das matérias mais importantes em Hogwarts. De acordo com eles, tudo está sob o controle do estado e os estudantes não precisam de recursos para garantirem a própria segurança.
Mais tarde, ela se torna diretora da escola e, a partir daí, vários decretos são baixados, cerceando as liberdades individuais dos alunos. Descobri mais tarde que algumas dessas medidas se assemelharam ao Macarthismo e também às medidas impostas no Brasil durante a ditadura militar: Umbridge, por exemplo, criou o Esquadrão Inquisitorial, cuja função era fiscalizar e denunciar o mau comportamento de colegas.
No entanto, não é possível evitar tragédias com narrativas ideológicas ou negando dados e evidências. Assim, a saga de Harry Potter ensina sobre a importância de um governo limitado, da liberdade de pensamento e da educação em prover os insumos necessários ao exercício da cidadania.
PS: embora reconheça que há problema de viés ideológico no ensino brasileiro, não creio que este seja o maior problema, e não sou a favor do Escola Sem Partido. Comentei já nesta entrevista no Pânico.
3) A importância da liberdade de imprensa
A partir do quinto livro, vemos o Ministério da Magia manipulando a opinião pública, por meio do Profeta Diário, o jornal de maior circulação na sociedade bruxa do Reino Unido. Inclusive, o próprio primeiro-ministro lança mão de sua influência para negar a existência de um perigo iminente, a fim de manter-se no poder.
Consequentemente, há demonstrações civis de apoio a Fudge e ataques diretos a Dumbledore e Harry, fomentados pela narrativa do governo.
Já no último ano, quando o regime assume suas tendências mais autoritárias, veículos de comunicação alternativos, como o Pasquim, são censurados. Durante a guerra que se inicia, estações de rádio clandestinas tornam-se a única fonte confiável de notícias.
Em suma, esses fatos demonstram como a liberdade de imprensa é a pedra angular da democracia.
4) A necessidade de combater o preconceito
Muito além de bruxos e animais fantásticos, o mundo da saga contém outras inúmeras criaturas racionais, dotadas de capacidades idênticas a dos humanos, com ou sem poderes mágicos. Mas, a despeito de suas semelhanças, alguns grupos minoritários são explorados, devido às suas diferenças físicas.
Diante dessa realidade, em seu quarto ano em Hogwarts, Hermione cria A Frente de Libertação dos Elfos Domésticos, que trabalhavam como escravos, inclusive, na escola. Essa é uma importante lição, pois, para ter sua causa reconhecida, ela precisa enfrentar os próprios amigos, que encaram a situação com conivência, argumentando que isso faz parte da sociedade mágica há anos. E, serve como exemplo de determinação no combate ao preconceito.
O cerceamento de direitos aos Elfos já havia sido retratado no segundo livro, quando Harry ajuda um deles a escapar de seu senhor. Todavia, apenas dois anos depois, a autora decidiu expor como esse preconceito era enraizado nas Instituições. Ou seja, não se tratava de um caso isolado, assim como acontece na vida real aqui no Brasil.
Em suma, o próprio vilão, Voldemort, e todos os seus seguidores difundem a ideia de pureza racial, que exclui também bruxos nascidos de pais comuns, denominados “sangues-ruins”. E, a importância do combate a essa corrente é exposta várias vezes ao longo da série.
5) As características de um verdadeiro líder
Quando todas as Instituições começam a ruir devido à infiltração de membros aliados a Voldemort, cujo intuito é assumir o controle sobre a sociedade civil bruxa, Harry toma a frente do treinamento dos jovens combatentes, criando a Armada de Dumbledore. Afinal, o momento era oportuno e havia a necessidade de que alguém assumisse esse papel.
A lição aprendida: um verdadeiro líder não espera que tarefas lhe sejam delegadas.
Entretanto, apesar de ser o herói da história, outras personagens também demonstram comportamentos protagonistas ao longo do tempo. Um exemplo foi Hermione, que atua como liderança na caça às horcruxes – artefatos que precisavam ser destruídos para que eles vencessem a guerra. Ou seja: trabalho em equipe! Algo, inclusive, muito presente desde o primeiro livro da obra.
Da ficção à vida real, a liberdade é o sustentáculo da evolução humana
É claro que a possibilidade de resolver vários problemas com uma varinha mágica ajuda muito, mas, grande parte do triunfo do bem contra Voldemort deve-se à cooperação e à organização de vários agentes e diferentes personagens nesse sentido.
Por fim, à medida que os três amigos adquiriam mais conhecimentos sobre magia, mais responsabilidades eram incumbidas a eles com o passar dos livros. Assim também funciona a liberdade. Afinal, não é possível ser livre, sem ser responsável pelas consequências de seus atos.
Se Harry Potter me rendeu algumas horas de distração em meio ao caos da pandemia, na minha infância e adolescência me proporcionou algumas lições sobre liberdade e liderança, pelas quais sempre serei grato.
No início da primavera de 1967, eu estava no meio de uma discussão acalorada no corredor às duas da manhã com colegas de Yale sobre a Guerra do Vietnã. Eu era de uma pequena cidade do Oregon e já havia ingressado na Reserva do Corpo de Fuzileiros Navais. Meus amigos eram principalmente de escolas preparatórias da Costa Leste. Um deles disse que Lyndon B. Johnson estava mentindo para nós sobre a guerra. Eu soltei: "Mas ... mas um presidente americano não mentiria para os americanos!" Todos caíram na gargalhada.Quando contei essa história aos meus filhos, todos começaram a rir também. É claro que os presidentes mentem. Todos os políticos mentem. Deus, pai, de que planeta você é?Antes da Guerra do Vietnã, a maioria dos americanos era como eu. Após a Guerra do Vietnã, a maioria dos americanos é como meus filhos.Os Estados Unidos não perderam apenas a guerra e a vida de 58.000 jovens homens e mulheres; O Vietnã nos mudou como país. De muitas maneiras, para pior: nos deixou cínicos e desconfiados de nossas instituições, especialmente do governo. Para muitas pessoas, corroeu a noção, uma vez quase universal, de que parte de ser americano estava servindo seu país. Mas nem tudo na guerra foi negativo. Como tenente da Marinha no Vietnã, vi como reunia jovens de diversas origens raciais e étnicas e os obrigava a confiar um no outro com suas vidas. Foi um crisol racial que desempenhou um papel enorme, se não apreciado, em levar os Estados Unidos à verdadeira integração.E, mesmo assim, enquanto o Vietnã continua a moldar nosso país, seu lugar em nossa consciência nacional está diminuindo. Cerca de 65% dos americanos têm menos de 45 anos e, portanto, são incapazes de se lembrar da guerra. Enquanto isso, nossas guerras no Iraque e Afeganistão, nosso envolvimento na Síria, nossa luta contra o terrorismo - esses conflitos estão empurrando o Vietnã para o segundo plano. Mais uma razão, portanto, para revisitarmos a guerra e suas conseqüências para hoje. Este ensaio inaugura uma nova série do The Times, Vietnã '67, que examinará como os eventos de 1967 e início de 1968 moldaram o Vietnã, a América e o mundo. Felizmente, isso gerará uma conversa renovada em torno dessa história, agora meio século atrás.O que os leitores tiram dessa conversa é outra questão. Se tudo o que fazemos é debater por que perdemos ou por que estávamos lá, perderemos a pergunta realmente importante: O que a guerra fez conosco como americanos? CINISMOO Vietnã mudou a maneira como encaramos a política. Ficamos feridos de nossos líderes que estavam na guerra: o incidente fabricado no Golfo de Tonkin, o número de "províncias pacificadas" (e o que "pacificado" significa, afinal?)), Conta o corpo inflado. As pessoas falavam da "lacuna de credibilidade" de Johnson. Era uma maneira gentil de dizer que o presidente estava mentindo. Entretanto, uma lacuna de credibilidade foi considerada incomum e ruim. No final da guerra, ainda era considerado ruim, mas não era mais incomum. Quando os políticos mentem hoje, os verificadores de fatos podem indicar o que é verdade, mas todos seguem em frente.Mudamos de ingenuidade para cinismo. Alguém poderia argumentar que eles são opostos, mas acho que não. Com a ingenuidade, você corre o risco de desilusão, e foi o que aconteceu comigo e com muitos da minha geração. O cinismo, no entanto, impede você antes de começar. Isso nos afasta do "governo", uma frase que hoje conota lamaçal burocrático. Ameaça a democracia, porque destrói o poder do povo até querer fazer mudanças.Você não termina o maior sistema de rodovias do mundo, constrói um grande número de escolas e universidades públicas, institui a Grande Sociedade, luta uma grande guerra e vai para a lua, o que fizemos na década de 1960 - simultaneamente - se você é cínico sobre governo e políticos.Eu moro perto de Seattle, dificilmente território Donald J. Trump. A maioria dos meus amigos zomba cinicamente do slogan de Trump, Make America Great Again, citando tudo o que havia de errado nos velhos tempos. Na verdade, não era o paraíso, principalmente para as minorias. Mas há alguma verdade nisso. Nós éramos maiores então. Foi a guerra - não liberalismo, nem imigração, nem globalização - que nos mudou.
CORRIDA
Em dezembro de 1968, eu estava no topo de uma colina na selva a cerca de um quilômetro da zona desmilitarizada. Um helicóptero deixou cerca de três semanas de correspondência encharcada e pacotes de cuidados amassados. Naquela pilha havia um pacote para Ray Delgado, um garoto latino-americano de 18 anos do Texas. Eu assisti Ray rasgar o embrulho de papel alumínio e, sorrindo amplamente, segurar algo para eu ver. "O que é isso?" Eu perguntei. “São tamales. Da minha mãe." "O que são tamales?" "Você quer tentar um?" ele perguntou."Certo." Eu olhei para ele, virei, enfiei na boca e comecei a mastigar. Ray e seus outros amigos hispânicos mal se continham enquanto eu brincava mastigando e pensando: "Não é de admirar que esses mexicanos tenham dentes tão bons".
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Karl Marlantes em casa no Oregon, pouco antes de embarcar para o Vietnã em 1968.
"Tenente", Ray finalmente disse. "Você tira a casca de milho."
"Tenente", Ray finalmente disse. "Você tira a casca de milho."
Eu era de uma cidade madeireira na costa do Oregon. Eu tinha ouvido falar de tamales, mas nunca tinha visto um. Até entrar para a minha companhia de fuzileiros navais no Vietnã, eu nunca tinha conversado com um mexicano. Sim, pessoas como eu chamavam pessoas como Ray de "mexicanos", mesmo sendo tão americanas quanto torta de maçã - e tamales. A tensão racial em que cresci foram os suecos e noruegueses se enfrentando aos finlandeses todos os sábados à noite no estacionamento do lado de fora da dança no Templo do Trabalho.
O presidente Harry Truman ordenou a integração das forças armadas em 1948. Na época da Guerra do Vietnã, as raças estavam servindo juntas. Mas colocar todos nas mesmas unidades é muito diferente de fazê-los trabalhar juntos como uma unidade.Nossa memória nacional de integração é principalmente sobre as pessoas corajosas do movimento dos direitos civis. Imagine armar todos os estudantes do ensino médio de Birmingham, Alabama - brancos e pretos - com armas automáticas em um ambiente em que o uso dessas armas era tão comum quanto almoçar e todos eles usavam testosterona. Essa é a tensão racial. Durante a guerra, houve mais de 200 fragmentos nas forças armadas americanas - assassinatos realizados por granadas de fragmentação, o que impossibilitou a identificação do assassino. Quase todos os fragmentos, pelo menos quando o agressor foi pego, foram motivados racialmente.
E, no entanto, a experiência mais comum em combate foi cooperação e respeito. Se eu fosse detido pelo fogo inimigo e precisasse de um homem M-79, gritaria por Thompson, porque ele era o melhor. Eu nem pensei em que cor era Thompson.
Homens brancos tiveram que ouvir música soul e homens negros tiveram que ouvir música country. Não nos temíamos. E a experiência ficou conosco. Centenas de milhares de jovens chegaram do Vietnã com idéias diferentes sobre raça - alguns para pior, mas outros para melhor. O racismo não foi resolvido no Vietnã, mas acredito que foi onde nosso país finalmente aprendeu que seria possível para todos nós nos darmos bem.
SERVIÇO
Recentemente, eu estava em uma leitura em Fayetteville, Carolina do Norte, quando um jovem casal apareceu na mesa de autógrafos. Ele estava de pé e alto, de uniforme militar. Ela estava segurando um bebê em um braço e carregando uma criança com o outro. Ambos pareciam ter cerca de dois anos fora do ensino médio. A mulher começou a chorar. Perguntei a ela o que havia de errado e ela disse: "Meu marido vai embarcar novamente amanhã." Eu me virei para ele e disse: "Uau, sua segunda turnê?" A Guerra do Vietnã deu início ao final do rascunho e a criação do que o Pentágono chama de "militares totalmente voluntários". Mas eu não. Eu chamo de militares recrutados. Voluntários são pessoas que correm para os correios para se inscrever depois que Pearl Harbor ou o World Trade Center são bombardeados. Recrutas, bem, é mais complicado. Quando eu era criança, quase o pai ou o tio de todos os amigos haviam servido na Segunda Guerra Mundial. Todas as mulheres na cidade sabiam que um destróier era menor que um cruzador e um pelotão era menor que uma empresa, porque seus maridos haviam estado em destróieres ou em pelotões. Naquela época, era chamado "o serviço". Hoje, chamamos de "militares". Essa mudança na linguagem indica uma mudança profunda nas atitudes da república em relação às suas forças armadas. O rascunho foi injusto. Apenas machos foram convocados. E os homens que podiam se dar ao luxo de cursar a faculdade não foram convocados até o final da guerra, quando os combates haviam caído.Mas livrar-se do rascunho não resolveu a injustiça.As elites americanas abandonaram principalmente o serviço militar. Gravado nas paredes do Woolsey Hall em Yale estão os nomes de centenas de Yalies que morreram nas Guerras Mundiais I e II. Trinta e cinco morreram no Vietnã e nenhum desde então.Em vez disso, a classe trabalhadora americana tem suportado cada vez mais o fardo de mortes e baixas desde a Segunda Guerra Mundial. Em um estudo da Universidade de Memphis Law Review, Douglas Kriner e Francis Shen analisaram a diferença de baixas de renda, a diferença entre a renda média das famílias (em constantes US $ 2.000) das comunidades com as maiores baixas (os 25% mais altos) e todas as outras comunidades. A partir de quase ponto morto na Segunda Guerra Mundial, a diferença de baixas foi de US $ 5.000 na Guerra da Coréia, US $ 8.200 na Guerra do Vietnã e agora é de mais de US $ 11.000 no Iraque e Afeganistão. Em outras palavras, os três decis de renda mais baixos sofreram 50% mais baixas do que os três mais altos. Se essas desigualdades continuarem a crescer, o ressentimento crescerá com ela. Com crescente ressentimento, a já ampla divisão entre militares e civis também aumentará. É assim que as repúblicas caem, com exércitos e partes do país mais leais ao comandante do que ao país. Precisamos voltar ao espírito do recrutamento militar e como as pessoas se sentiam em relação ao serviço em seu país. A minuta militar foi vista pela maioria de nós da mesma maneira que vemos o imposto de renda. Eu não pagaria meus impostos se não houvesse a ameaça de prisão. Mas como cidadão responsável, também vejo que é necessário pagar impostos para financiar o governo - meu governo. As pessoas ainda resmungavam. Nós reclamamos de impostos. As pessoas ainda tentavam puxar as cordas para obter tarefas mais agradáveis. Mas todos serviriam. Eles trabalhariam para "o governo" e talvez comecem a vê-lo como "nosso governo". É muito mais difícil ser cínico em relação a seu país se você dedicou dois anos de sua vida, tornando-o um lugar melhor.Que as forças armadas sejam apenas uma das muitas maneiras pelas quais os jovens podem servir seu país. Com o serviço universal, um garoto de Seattle poderia compartilhar um tamale com uma garota hispânica de El Paso. Conservadores e liberais aprenderiam a trabalhar juntos por uma causa comum. Poderíamos voltar ao espírito de pessoas de diferentes raças aprendendo a trabalhar juntas em combate durante a Guerra do Vietnã. A Guerra do Vietnã continua a nos definir, mesmo que tenhamos esquecido como. Mas ainda não é tarde para lembrar e fazer algo a respeito.