segunda-feira, 6 de abril de 2020

Método, e não retórica, deve reinar na economia - Pastor Lisboa

Método, e não retórica, deve reinar na economia

RESUMO Uma vez que a economia ajuda nas escolhas feitas para a implementação de políticas públicas, cabe a ela usar dos procedimentos da ciência para ajudar a garantir a efetividade das propostas. Método, argumentos precisos e bases de dados acessíveis permitem a revisão crítica de acadêmicos e a verificação

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Economia não é literatura, em que boas histórias são suficientes. Ciência requer método: argumentos precisos que possam ser contrapostos a testes empíricos. Neste ensaio, utilizamos alguns exemplos para ilustrar como os procedimentos acadêmicos podem colaborar com a política econômica.

Como revela o caso brasileiro recente, a estratégia usual de quem fracassa na condução da economia não é reconhecer seus próprios erros e procurar corrigir o rumo, mas sim procurar culpados –seja uma crise externa, seja um interesse contrariado. O inferno são os outros.

A controvérsia na academia é de outra natureza. Como evitar que sejamos reféns das nossas crenças, atribuindo os fracassos aos demais? Como identificar eventuais falhas dos nossos argumentos ou das suas implicações empíricas, evitando a armadilha do autoengano? O inferno somos nós.

O método e os procedimentos da ciência procuram garantir critérios para identificar as fragilidades dos argumentos por meio de conjecturas precisas o suficiente para que possam ser rejeitadas pelos dados disponíveis. Procuram também reduzir a possibilidade da estratégia que procura superar o fracasso com uma história oportunista. Argumentos precisos e bases de dados acessíveis permitem o contraditório, a revisão crítica pelos demais acadêmicos.

Como argumentamos adiante, são de pouca valia tanto modelos sem suporte empírico quanto dados sem modelos que permitam identificar a causalidade entre as variáveis.

A economia procura evitar a retórica que promete muito, porém entrega pouco. Esse risco não tem filiação ideológica, contaminando tanto argumentos identificados como à esquerda no debate popular no Brasil, como diversos argumentos desenvolvimentistas, quanto os à direita, como as teses liberais extremas do pensamento austríaco.

A produção acadêmica apenas permite selecionar as conjecturas consistentes com a evidência disponível, assim como delimitar as fragilidades dos argumentos. Dessa análise resultam, frequentemente, diversas opções de políticas públicas, contudo, com implicações distintas sobre a economia e a sociedade. Cabe à política, não à economia, fazer a escolha entre essas opções.

MODELOS

Comecemos com um exemplo. Diversos modelos resultam em uma relação entre a taxa de juros fixada pelo Banco Central e a trajetória futura da taxa de inflação. A estatística permite verificar em que medida o resultado previsto pela teoria –alta do juro levando à queda da inflação– é consistente com os dados observados, dentro de uma margem de erro. Importam aqui dois aspectos: 1) a conjectura teórica pode ser rejeitada pelos dados; e 2) há sempre uma margem de erro, descrita por um intervalo de confiança.

A margem de erro é inevitável por duas razões.

Em primeiro lugar, o argumento científico não captura todos os fatores que afetam a variável analisada. Modelos em economia são, por necessidade, simplificações da realidade, capturando apenas uma parcela dos fatores que afetam as variáveis (no famoso conto de Borges, os sábios tardiamente constatam que os mapas de tamanho real são de pouca utilidade prática). O desafio é demonstrar que, apesar dessas limitações, a conjectura não pode ser rejeitada pelos dados.

Em segundo lugar, pode haver incerteza intrínseca aos fenômenos, não apenas uma medida da nossa ignorância ou de modelos simplificados.

Em ambos os casos, a conjectura deve ser analisada como probabilística. Essa não é uma peculiaridade da economia. O tratamento probabilístico ocorre em ciências como a física e a biologia e pode decorrer da nossa ignorância ou da incerteza intrínseca aos fenômenos. Na economia, houve um estéril debate sobre em que medida a probabilidade deveria estar restrita a fenômenos repetidos, o qual apenas revelou a falta de conhecimento de matemática.

VERACIDADE

A eventual consistência da conjectura com os dados observados, no entanto, não significa que se possa concluir pela veracidade da tese. O resultado pode ser fortuito. Por isso, o jargão usual é afirmar que a conjectura "não foi rejeitada" pelos testes empíricos, e não que ela "foi validada". A "verdade" pode ser defendida na religião ou em ramos da filosofia, não nas ciências.

A controvérsia sobre o que se pode inferir da análise empírica resultou na abordagem pragmática das ciências. Não se pode afirmar a verdade das conjecturas, mas apenas a sua possibilidade, uma vez que não rejeitadas pelos dados disponíveis, podem vir a ser desmentidas por novas evidências. Deve-se manter a húbris sobre controle.

Diversos trabalhos em história da ciência mostram como alguns acadêmicos utilizaram artifícios para evitar reconhecer os equívocos dos seus argumentos. Os procedimentos da ciência, no entanto, permitiram não apenas identificar esses casos; eles também resultaram em notáveis transformações nos últimos 300 anos.

A evidência disponível indica que a renda por habitante no mundo até meados do século 17 não ultrapassava o equivalente a R$ 5 por dia, renda que, nos padrões atuais, define a extrema pobreza. E a expectativa de vida era de cerca de 40 anos de idade.

A pesquisa acadêmica indica dois fatores como os mais prováveis responsáveis por esse resultado: 1) os métodos e procedimentos para a construção de argumentos científicos; e 2) as profundas transformações institucionais ocorridas nos países desenvolvidos a partir do fim do século 17.

CONTRADITÓRIO

O debate público pode levar o acadêmico a perder um pouco do rigor e humildade científicos. Isso apenas reforça a necessidade do contraditório, na contramão dos manifestos indignados que pedem que editores de jornais censurem argumentos.

A crítica é essencial, pois o que podemos concluir, com os dados disponíveis, é um subconjunto pálido do que gostaríamos de saber. A evidência indica que graves desequilíbrios fiscais geram inflação e juros elevados; que controle cambial gera desequilíbrios nas contas externas; que desemprego baixo e inflação alta recomendam uma política monetária mais restritiva; que a ausência de direitos de propriedade prejudica o investimento; que intervenções setoriais discricionárias podem ser contraproducentes.

Por outro lado, não há evidência consolidada sobre quando a política fiscal expansionista colabora com a expansão da economia; o que o Banco Central deve fazer frente a um choque adverso de oferta; ou, ainda, como identificar os projetos que apresentam retorno social maior do que o privado e que, portanto, devem ser subsidiados. E, para a tristeza dos macroeconomistas, seguramente não entendemos os determinantes da taxa de câmbio no curto prazo.

A produção acadêmica apenas permite eliminar as políticas cujos resultados propostos são inconsistentes com a evidência disponível. Usualmente, diversas políticas superam esse filtro, com implicações distintas sobre a economia e a sociedade. Algumas, por exemplo, podem resultar em maior crescimento da produtividade e maior desigualdade de renda, enquanto outras podem proteger os grupos mais vulneráveis à custa de menor crescimento econômico.

A escolha da política a ser adotada requer um juízo de valor sobre as possíveis opções e seus custos e benefícios. E juízo de valor não cabe à economia, mas sim à deliberação da sociedade.

DISPERSÃO

Argumentos sem dados podem ser tão sedutores quanto equivocados. Ilustramos esse ponto com um exemplo conhecido dos economistas. Existe uma imensa dispersão de renda entre os países do mundo. O grupo dos mais ricos tem renda por habitante cerca de 20 vezes maior que o dos mais pobres.

Nos anos 1990, alguns economistas resgataram a conjectura de Schumpeter, devida originalmente a Karl Marx, sobre o papel da concorrência no estímulo à inovação. Nesse argumento, a produtividade decorre das decisões de investimento por parte das empresas, que obtêm lucros extraordinários enquanto a inovação não é copiada pelos demais. A conclusão, portanto, é que quem investe mais em tecnologia torna-se mais desenvolvido. O arcabouço formal é elegante e preciso; a intuição é clara. Mas... A elegante conjectura não recebeu o suporte dos dados. Inovações não explicam a diferença de renda entre os países. A tese foi rejeitada. A vida é dura.

Pode-se procurar defender a conjectura argumentando que é possível importar técnicas de produção desenvolvidas alhures. Se essa importação não está ocorrendo, ou se as empresas que usam as melhores técnicas não são capazes de expulsar as ineficientes do mercado, outra explicação é necessária. Assim evoluem as coisas no mundo acadêmico. Modelos sem suporte empírico morrem e são substituídos.

HUMILDADE

"O que os dados estão de fato dizendo?". Dados não fazem milagres. Na maioria das vezes, apenas nos ajudam a discriminar os diversos argumentos compatíveis com a evidência –mais um motivo, vê-se, para certa dose de humildade. Um exemplo numérico ajuda a ilustrar esse ponto.

Considere uma política pública voluntária de treinamento para trabalhadores que recentemente perderam seus empregos. De cada 100 desempregados, 20 escolhem fazer o curso e, desses, 14 conseguem, um ano depois, empregos melhores do que os que não fizeram o curso. Já do grupo dos 80 que não frequentaram o curso, 40 conseguiram empregos melhores.

Vale a pena gastar tempo e recursos com esse programa? O que dizem os tais dados?

O problema reside na ausência de evidência contrafactual: qual seria o desempenho dos desempregados que não participaram do programa caso eles tivessem na verdade participado? Os desempregados que escolheram fazer o curso provavelmente são diferentes dos demais; afinal, escolheram estudar depois de perder o emprego. Talvez por serem diferentes, e não por causa do curso, têm maior chance de conseguir empregos melhores do que os demais.

Isso significa duas possibilidades extremas: 1) os desempregados que não participaram do curso não se beneficiariam do programa; 2) o programa beneficiaria todos os que escolheram não participar. No meio do caminho: 3) o programa teria impacto semelhante em todos os desempregados.

As três conjecturas são possíveis, mas, na ausência de testes adicionais, os dados não permitem uma resposta precisa.

Sob 1), de 100 desempregados, 14 (grupo tratado, com melhora) + 0% vezes 80 (grupo sem contrafactual)= 14 teriam melhor desempenho se o programa se tornasse obrigatório. Mas sob 2), dos mesmos 100, 14+ 100% vezes 80 = 94 conseguiriam melhores empregos. A conjectura intermediária prevê 14+ 70% vezes 80 (grupo não tratado) = 70 beneficiados pela extensão do programa para todos os desempregados. Os dados têm poder limitado nesse caso.

Incertezas similares valem para outros tipos de estudos empíricos. Sem teoria, os dados dizem pouco. Mas, ao menos, a discussão permite distinguir as razões da divergência, além de propor novos testes para colaborar com a controvérsia. A propósito, a evidência adicional indica que os que escolheram participar do programa são, de fato, diferentes dos demais, e o impacto do programa é menor.

CETICISMO

À guisa de conclusão, vale dizer que, em economia, o santo é realmente de barro, e as incertezas são muitas. O iluminismo relevante é o escocês, dominado pelo ceticismo e o pragmatismo. Não temos acesso à verdade; temos, na melhor das hipóteses, conjecturas que não tenham sido rejeitadas pelos dados (mas que podem vir a sê-lo).

Ciência requer procedimentos formais sobre conjecturas precisas, testes empíricos e discussões detalhadas sobre modelos estatísticos, colaborando com o rigor na análise da evidência e dos argumentos propostos.

Nem todos os caminhos levam a Roma. Por maiores que sejam as suas limitações, argumentos precisamente definidos e testes empíricos que verifiquem a validade das conjecturas são preferíveis a teses de ocasião, desconexas, recheadas de retórica e latinismos, que buscam muitas vezes a simples desqualificação da divergência. A política pública se beneficiaria de maior cuidado e atenção às evidências e aos procedimentos.

CARLOS EDUARDO GONÇALVES, 43, é professor titular da USP e economista do site porque.com.br

MARCOS DE BARROS LISBOA, 51, é doutor em economia pela Universidade da Pensilvânia e presidente do Insper

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Crise do Capitalismo

THREAD - A CRISE E O CAPITALISMO

1/ Parem de falar que esta é uma crise do Capitalismo. Muito pelo contrário, o Capitalismo nunca foi tão saudável e é justamente o Capitalismo que vai salvar vocês da crise. Mais uma vez. Aliás, todos vocês são soldados do Capitalismo.

2/ Todo dia leio gente falando do Capitalismo. E em momentos de crise, o falatório aumenta exponencialmente, em uma progressão com taxa de crescimento mais explosiva que a do próprio contágio do Coronavírus. 2008 foi assim também. Vai ser sempre assim.

3/ Inclusive, por favor, continuem postando suas críticas aqui no Twitter, esta empresa de capital aberto com market cap de USD 19,2 bi. Evidentemente não se esqueçam de deixar suas críticas ao Capitalismo no Facebook também, outra empresa de capital aberto com +

4/ + um market cap de USD 426 bi. (market cap = capitalização de mercado, é o "valor" da empresa ao preço de sua ação multiplicado pelo número de ações). Aproveitem e deixem suas manifestações em vários outros apps que desejarem, ou serviços abertos, enfim, não importa, vocês

5/ respiram o Capitalismo, e ele irá salvar vocês. Vocês querem ser salvos pelo Capitalismo, porque vocês não conhecem outra coisa a não ser ele. Seu cérebro irá sempre procurar o Capitalismo como porto seguro. Se bobear, já existe Capitalismo no DNA mitocondrial do ser humano +

6/ + nessa altura do campeonato. 😄
Deixem-me colocar uma citação genial aqui, de um homem que admiro muito:

"On the market of a capitalistic society the common man is the sovereign consumer whose buying or abstention from buying ultimately determines what should be +

7/ + produced and in what quantity and quality. Those shops and plants which cater exclusively or predominantly to the wealthier citizens demand for refined luxuries play merely a subordinate role in the economic setting of the market economy. They never attain the size of +

8/ + big business. Big business always serves - directly or indirectly - the masses." -- Ludwig von Mises, The Anti-Capitalistic Mentality.
Entenderam o que eu disse? Não existe Capitalismo se não for para servir as massas. O Empresário Capitalista, por definição, se quiser +

9/ + chegar ao status de ser o dono de um "grande negócio", terá que se voltar a atender uma DEMANDA. Quanto maior a DEMANDA, melhor para ele. E quem DEMANDA? O trabalhador. E seu próprio trabalhador.
Então esse Twitter que vocês usam para criticar o Capitalismo, nada mais é +

10/ + do que um grande negócio que serve, e só existe, para atender a demanda de vocês, que querem criticar o Capitalismo. O Facebook, uma empresa 20x maior que o Twitter, um grande negócio, só existe porque vocês DEMANDAM o Facebook. Logo, ele atende uma demanda que vocês tem, +

11/ + e todos lucram muito com isso...
Vamos a mais uma citação genial deste homem que admiro tanto:
"In a society based on caste and status, the individual can ascribe adverse fate to conditions beyond his own control. (...)It is not his doing, and there is no reason for him +

12/ + to be ashamed of his humbleness. His wife cannot find fault with his station" -- Ludwig von Mises, The Anti-Capitalistic Mentality.
Ou seja, nesse sistema onde qualquer um pode buscar condições para se tornar um ofertante para uma DEMANDA, ninguém pode justificar que é +

13/ + um escravo porque já nasceu escravo. Você não poderá repousar qualquer desculpa alheia ao mecanismo de mercado para justificar seu fracasso em qualquer coisa. A arena é comum e a mesma para todos...
A poluição só surge, nesse sistema, quando uma força alheia ao mecanismo +

14/ + de mercado o polui. O Estado.
Então parem de criticar o que justamente irá salvá-los.
Porque vocês DEMANDAM uma salvação. E ela virá de um Capitalista, ou grupo de Capitalistas.
São eles que mantém os cofres públicos rodando, pois são eles quem pagam impostos. Nenhum +

15/ + governo produz riqueza. O governo é um mero intermediador de recursos dos Capitalistas, que o delegam a responsabilidade de entregar serviços públicos, que não são foco central do seu grande negócio.

16/ Vocês demandam remédios, demandam vacinas, demandam profissionais de saúde. Vocês DEMANDAM.
O Capitalista oferta.

O Capitalismo não é um sistema político, ele é um modo de produção. Ele é um MODO, de PRODUÇÃO. A característica central deste MODO de PRODUÇÃO é o acumulo de +

17/ + Capital, para que o Capitalista possa cada vez mais atender não só uma como muitas DEMANDAS que vocês possuem, em MASSA. Sim o Capitalista se vale do marketing. Sim o Capitalista se vale de N mecanismos para estimular essa demanda porque ele oferta o que vocês querem. Mas +

18/ + ainda assim, não existe nada de graça neste Universo Tridimensional e para que a DEMANDA seja, no limite, infinita, a RENDA também deve ser, no limite, INFINITA.
O consumidor é soberano em sua escolha sobre o quê e quanto demandar. Somente sua cultura o limita. +

19/ E é justamente por esta razão que seu pai demandava um gravador de rolo da Akai, por exemplo, enquanto você demanda um Smartphone fabricado na China ou na Coréia do Sul.
E é justamente graças ao acumulo de Capital, que vocês terão uma vacina para Coronavírus logo mais.

20/ A respeito desta crise, portanto, o que me preocupa nela, o que me faz crer que ela tende a ser pior que a de 2008, é justamente o fato dela ocorrer depois da de 2008. O mundo hoje, devido a um intervencionismo desenfreado NÃO CAPITALISTA, criou um nível de fragilidade +

21/ + inédito, onde um simples vírus novo, oriundo de um país Asiático, que escapou em uma região onde pessoas tem por hábito comer animais silvestres há milênios, é capaz de interditar o Planeta. Ou a espécie humana entende isto, e para de criar fragilidades, ou viveremos +

22/ + crise após crise, uma pior que a outra, neste modo de produção viciado pela intervenção Estatal que se criou durante o século XX.
A Crise portanto não é do Capitalismo, e sim do Anti-Capitalismo.

Boa noite

segunda-feira, 30 de março de 2020

Oportunismo Pastor Lisboa

*Oportunismo*

_Disputas miúdas na política dificultam o diálogo._






29.mar.2020 à 1h00

 EDIÇÃO IMPRESSA

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O Brasil entrou enfraquecido nesta crise. As disputas miúdas na política dificultam o diálogo e a construção de soluções coordenadas.

A mediocridade da economia reflete as muitas dificuldades que as empresas enfrentam há anos, o que agrava o impacto da parada súbita da atividade.

O setor público encontra-se engessado pelas despesas obrigatórias. Como resultado, estados e municípios pedem novos esforços da população e recursos do Tesouro Nacional, em parte para pagar a sua folha de pessoal nestes tempos de queda de receita.

É urgente cuidar da saúde, mesmo que implique aumento da dívida pública. Os novos meios de pagamento ("maquininhas") podem ser utilizados para transferir recursos públicos para os micro e pequenos empreendedores.

É preciso, porém, separar o joio do trigo. Existem muitos pedidos justificados, mas também há casos de oportunismo.

O Tesouro Nacional não é um manancial inesgotável. Sem gestão adequada, a dívida crescente, já uma das maiores entre os países emergentes, pode resultar em prolongada depressão.

O país empobreceu. Os acionistas perderam metade ou mais do seu patrimônio, pequenos comerciantes devem quebrar, trabalhadores informais estão sem renda.

A queda da arrecadação é o efeito colateral de uma sociedade mais pobre e que, portanto, pode pagar menos tributos. O setor público deveria saber que precisa fazer a sua parte, cortando gastos obrigatórios para contribuir com as despesas emergenciais.

Não é o que está acontecendo. Governadores pedem ao Tesouro, isto é, à sociedade, que compense a queda de receita, com estimativas que parecem superestimadas. Além disso, ficam a inventar novas formas de onerar as empresas. Parecem dizer: "setor privado, você paga pela política social enquanto eu aumento a dívida pública para preservar a renda dos servidores".

Enquanto isso, os Legislativos e Judiciários dos estados têm fundos com bilhões em caixa. Não seria o caso de utilizar esses recursos, que foram arrecadados da sociedade, para auxiliar no combate à pandemia?

Se o Estado brasileiro não é capaz de se ajustar à realidade, então há algo de muito errado com as nossas regras. Como defender o direito adquirido dos servidores em um país que recorrentemente aumenta a carga tributária, onerando cada vez mais o setor privado, ainda mais em uma crise desta proporção? Quem ganha mais de R$ 30 mil está entre o 1% com maior renda.

O poder público deveria, como o resto do Brasil, contribuir com sua cota de sacrifício e cuidar dos grupos de riscos e das famílias mais vulneráveis, que são as vítimas principais deste cataclismo, e não compactuar com o corporativismo.

Marcos Lisboa
Presidente do Insper, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (2003-2005) e doutor em economia.

sábado, 28 de março de 2020

Pandemia. De Leonardo Siqueira

1. Seja analista ao invés de torcedor.
A primeira coisa para quem quiser ter alguma credibilidade é não ser dogmático. Quem vira torcedor, perde qualquer capacidade de análise.
Além de perder credibilidade com aqueles que os ouvem.

2 . Se você tem uma visão sobre algo se pergunte: qual dado e informação eu precisaria verificar para confirmar minha visão. Qual informação eu precisaria para NEGAR minhas hipóteses? Sem isso, você tem apenas uma opinião que vale muito pouco.

3. Saber lidar bem com o que você NÃO sabe é muito mais importante do que com aquilo você sabe.
Não ver os "blind spots" é onde muitos erram. A maior parte das pessoas tomam decisões erradas porque tem certeza de que estão certas e não se permitem ver as alternativas melhores.

4. Coloque suas visões e crenças constantemente em xeque.
Quando se está analisando algo, a cada dado novo e a cada informação, veja se os dados confirmam a sua tese.
Se não confirmam, não há problema algum em mudar de posicionamento se houver informações suficientes pra isso.

5. Foque sempre na lei dos grandes números.
Se o objetivo é buscar explicações gerais, o caso que aconteceu com seu primo ou com país X não interessa.
Teorias servem para generalizar casos, portanto, um dado isolado não diz muita coisa.

6. Ausência de evidência não é evidência de ausência.
Não é porque você NÃO descobriu algo, que ele não existe. Portanto, jamais afirme que algo não existe porque você jamais o viu.

7. Sempre faça retrospectiva de suas análises anteriores e veja o que aconteceu.
(i) Isso vai permitir ver onde errou e acertou.
(ii) Você vai ver que a nossa capacidade de prever o futuro é MUITO MENOR do que imaginamos e isso já te coloca na frente de muitos.

8. Foque sempre nas consequências de médio/longo prazo.
É mais fácil (apesar de ser ainda difícil) tentar prever como estará a bolsa em 5 anos do que amanhã ou semana que vem.
É como dizem, é mais fácil acertar as estações do ano do que a temperatura amanhã.

9. Objetivo é maximizar a evolução.
Lembre-se. O objetivo nunca é acertarmos o que vai acontecer amanhã. Mas aprender a aprender.
Com essa transparência e auto-crítica total, é bem provável que você evolua muito nesse processo.

quarta-feira, 11 de março de 2020

De Leonardo Siqueira - Planos de Alfabetização - Douglass North Papers

De Leonardo Siqueira  - Planos de Alfabetização - Douglass North Papers

Com o PIB do Brasil - e do resto do mundo - sofrendo um choque, começam os pedidos para um GRANDE PLANO DE INDUSTRIALIZAÇÃO DO BRASIL.
Vale relembrar quando um Nobel em Economia, Douglas North, visitou o Brasil e foi vencido pelas ideias desenvolvimentistas de Celso Furtado. 
Em 1961, o governo americano estava decidindo se financiava ou não o "GRANDE PLANO DE DESENVOLVIMENTO DO NORDESTE".
A pobreza no Nordeste brasileiro atraia atenção da imprensa americana e John Kennedy, recém eleito, disse que um acordo de cooperação com o Brasil era prioridade. 
O governo americano, então, enviou Douglas North ao Brasil por 3 semanas.
North, professor de Economia da Universidade de Washington, veio conhecer o plano desenvolvido pela SUDENE (Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste) para dar seu veredito ao governo americano. 
Quem tinha criado o plano? Celso Furtado, um economista brasileiro que acreditava no Estado como motor do desenvolvimento e que tinha fundado a Sudene em 59.
O OPOSTO de North que dava mais valor ao PAPEL DAS INSTITUIÇÕES, das normas jurídicas, das regras do jogo... 
North Conheceu os planos de Furtado.
Na visão da Sudene (e de Furtado), a massiva industrialização do nordeste seria O ÚNICO CAMINHO PARA A REGIÃO ALCANÇAR O DESENVOLVIMENTO e absorver produtivamente o excesso de força de trabalho
Que surpresa não? rs. 
Após 3 semanas pelo Brasil, Douglas North tem seu veredito: "esse plano não vai dar certo”.
A razão era muito simples: nordeste não tinha mão de obra qualificada, não tinha matéria prima para fazer bens industriais, não tinha mercado consumidor. "This is not an industrial area". 
North diz que faltaria nos planos da Sudene UM PLANO DE EDUCAÇÃO PRIMÁRIA, uma vez que a ênfase dos projetos educacionais de Furtado recai sobre o ensino superior.
ERA MELHOR EDUCAR AS PESSOAS (como sugeria a literatura surgida na época) e descobrir as vantagens da região. 
Passaram 70 anos, resolvemos seguir as idéias de Celso Furtado que virou Ministro do Planejamento entre 62 e 64 e ignorar Douglas North.
O assassinato de John Kennedy em 63 acabou com qualquer possibilidade de acordo de cooperação, que além de financeira, também seria técnica. 
70 anos depois, o nordeste AINDA É A REGIÃO MAIS POBRE DO PAÍS. Sem indústria e sem educação básica.
E Douglas North ganhou UM PRÊMIO NOBEL em economia em 1993, com seu trabalho em Economia Institucional, área da economia que foca nas normas, regras sociais e jurídicas. 
Quando disserem que o caminho para o Brasil ficar rico é um plano que tem como prioridade a industrialização do país, com subsídios e estímulos e deixando de lado o AMBIENTE DE NEGÓCIOS E EDUCAÇÃO PRIMÁRIA é só lembrar Douglas North.
Tentamos isso por 70 anos sem muito sucesso. 

É baseado em material formado por documentos originais que se encontram na coleção “Douglass North Papers” da Duke University Library. Marcos Lisboa também conta essa história

sábado, 29 de fevereiro de 2020

A Mexicanizacao do Brasil. De Leonardo Siqueira

"Agora que os juros estão na mínima histórica de 4,25%, inflação ~3,50% e a dívida está se estabilizando, o BRASIL vai decolar".
Quem acha isso SUFICIENTE talvez não saiba que, em 2002, o México passou pelo mesmo processo que o Brasil está passando. E NÃO DECOLOU... Por que?

Por volta de 2002, o México daquela época era muito parecido com o Brasil de hoje.
O país diminuiu sua dívida externa, reduziu a inflação de 130% ao ano para para 4% e a taxa de juros, que estava em mais de 25% em 1997, caiu para 3%.
Com isso o risco-país despencou.

Muita gente achou que isso era o suficiente: "nem Deus para a economia mexicana".
O problema era que o México era um país confuso e atrapalhado, sem consenso sobre as prioridades e entregue a diversos grupos de interesse.
Isso refletia em um congresso extremamente dividido.

Resultado: deixou-se de lado todas as reformas para aumentar a produtividade do país.
- A reforma tributária não avançou.
- O regime da PEMEX (Petrobrás mexicana), para atrair investimentos, não passou.
- As distorções setoriais não diminuíram.

O resultado é, ASSIM COMO O BRASIL, um crescimento medíocre: De 2002 a 2017, o México cresceu aproximadamente 2,0%.
Sendo que - ASSIM COMO O BRASIL - parte desse crescimento é simplesmente mais gente entrando no mercado de trabalho.

Desde 1980, ASSIM COMO O BRASIL, a produtividade do México não aumenta. Hoje, é a mesma de 4 décadas atrás.
E se em 1980, um mexicano tinha 45% da renda americana, em 2019, esse valor caiu para 35%. O México que já era mais pobre que os Estados Unidos, ficou mais pobre ainda.

Isso nos ensina algumas lições.
Assim como no México, o Brasil tem tido avanços significativos e dificuldades nas reformas.
Juros de ~4%. Inflação abaixo da meta (4,25%), menor a dívida externa e menor risco país. Mas faltam as reformas da produtividade.

Sem falar que essa ideia de que basta reduzir os juros e controlar inflação pro país decolar era exatamente a mesma ideia da Nova Matriz Macroeconômica de Dilma.
A diferença é que eles fizeram aquilo na marra e de maneira não-sustentável. Mas a concepção não é muito diferente.

Dito isso. Precisamos de:
- Abertura comercial para dar produtividade.
- Reforma tributária para simplificar esse sistema complexo.
- Melhorar ambiente de negócios para facilitar abertura de empresas.
- Reduzir distorções setoriais que protegem setores ineficientes.

Hoje em dia, essa agenda de reformas nem é mais tão novidades assim. Todo mundo meio que sabe o que precisa ser feito.

E por que demora para avançar?

Porque falta consenso sobre as prioridades dos gastos públicos no país. Onde se gasta em tudo, nada é racionado...

Apesar desse "Novo Brasil", se não fizer as reformas necessárias, a economia brasileira vai sofrer a Mexicanização da Economia.

O Termo foi criado por Ilan Goldfajn em 2006, quando era Diretor do Banco Central.

domingo, 8 de dezembro de 2019

Parabéns Guarulhos

Faz 13 anos que eu trouxe a minha vida inteirinha dentro de  duas malas para Guarulhos. Era o que eu tinha.
Foi violento e tóxico.
Tive que trocar a calmaria pelo caos, pela fumaça pelo transito violento, pela crueza do dia a dia. Até o dia 19 de abril de de 2006, eu apenas colecionava uma velha bicicleta.
Só isso.
Uns parentes diziam,  você ainda vem morar aqui, profetizavam alguns. Eu ria. Estava feliz com o romance à distância.
Então, o destino, muito maroto, vem e muda tudo sem aviso prévio. Em um mês abria caixas num quarto de pensão;  sem privacidade, com estranhos , porém receptivos. E foste um difícil começo, dizia Caetano, para mim que vinha de outra realidade de cidade. Aprendi depressa a chamar-te realidade. Porque no dia a dia em Guarulhos é o avesso do avesso do avesso do avesso. É o poste que que mija no cachorro, é cachorro que corre atrás do rabo. É o inverso do contraditório. É o pavor que chega e não pode te fazer nada, e  é o contrário do medo que é imediato, o pavor não passa, você nada pode controlar.  Mas pior de tudo, se acostuma com isso.
Para mim e para todo mundo que repete que a vida é curta demais,  a realidade é diferente do sonho. O despertador da rotina atropela  o imprevisível do fim de semana.
Me transformei no chato de galocha que reclama do prestador de serviço que não aparece, da informalidade, da insegurança, das sujeira inacabável,  das ruas esburacadas, das pessoas atrasadas, dos políticos corsários,  da politicagem de rede social, da Guarulhos de Facebook só existente no gestor público, nos geo clepitmaniacos - os ricos astutos do poder, usando os pobres vítimas de uma Guarulhos perversa de pactos coletivos que só piora; do serviço ruim e caro, da malandragem, do som alto intolerante, serviços públicos inexistentes aos qual a periferia não tem -  do caos no trânsito, de tudo que vira pizza. Só não vê quem não quer.
Numa utopia, se fosse possível Deus tiver conhecido Guarulhos ao construir o inferno para o satanás e não homens, faria daqui uma inspiração.
Aqui Guarulhos só existe na rede social de seus gestores hipócritas. Passam um dois dias em suas comunidades colendo fotos e fake news de trabalho e eficiência e voltam ao seu condomínio ao lado da câmara municipal. Mentem cedo, mentem a tarde e mentem a noite, ah mentem de madrugada também. Mas a população infelizmente acredita.
Guarulhos é um ato de muito esforço político para ser assim, injusta, burocrática, desigual e sem lei. Guarulhos é uma terra sem Estado, onde o municipe não sente ações do seu município trabalhando por ele.
Mas há o lado bom sim.
Mas você se dá conta que só enxerga o copo meio vazio, que dá para ter um olhar crítico sem deixar de apreciar o lugar. Que o habitual e invariável do cotidiano pode massacrar a relação com qualquer cidade. Que tem gente que reclama de todas os lugares. 
Foi quando resolvi fazer as pazes com o lugar onde vivo.
Morar aqui é uma merda, mas é bom, disse Tom Jobim sobre o Brasil. Vale o mesmo para Guarulhos. Não é tapar a realidade com a viseira, mas encará-la de um jeito mais juvenil. Festejar tudo o que há de bom ao redor.
Tento, tento,  viver a cidade de uma forma sempre nova, ir a lugares que não conheço, em que preciso aprender o caminho para chegar, onde não sei o nome das pessoas , se aceita cartão ou só dinheiro. , troquei pessoas, passei a ter um olhar mais estrangeiro, como se estivesse apenas de passagem. A gente não sabe o dia de amanhã. Só sei que se um dia não estiver mais aqui, quero sentir saudade do que Guarulhos  tem de bom. E tem muita coisa.
Deveria ser assim com tudo.
Fiz menos amizades do que gostaria, mas elas são verdadeiras. 
Feliz ano novo para nós. Eu e você, Guarulhos.

Ps. O texto é uma adaptação, de anos atrás quando escrevia, mas continua vivo.

sábado, 23 de novembro de 2019

O ECONOMISTA LIBERAL INFILTRADO.



Como o Pastor Lisboa Marcos Lisboa foi parar na equipe econômica do PT?

Pega essa história maravilhosa...

 Muitas pessoas conhecem Marcos Lisboa pela sua atual presidência do Insper. Mas Lisboa tem uma participação fundamental nas eleições de 2002. Os principais candidatos a presidente eram, em ordem de sucesso nas urnas, Lula (PT), José Serra (PSDB), Garotinho (PSB) e Ciro Gomes.
 O PSDB estava coligado com o PMDB. Moreira Franco, então presidente da Fundação Ulysses Guimarães (braço programático do PMDB) encomendou a um grupo de economistas um conjunto de propostas para o programa de governo.
Dentre os economistas neste grupo, estava Marcos Lisboa.
 O documento foi apresentado ao candidato José Serra. Mas não rolou química, de nenhum dos lados!
Os economistas não saíram com boas impressões de Serra que chegou a dizer ao final do encontro a Moreira Franco: “Pô Wellington, como você gosta desse pessoal de direita!”
 Meses depois, Ciro Gomes entrou em contato com José Alexandre Scheinkman, então professor de Princeton (hoje em Columbia) e, sem dúvida, o economista brasileiro de maior impacto na comunidade acadêmica internacional. Scheinkman aceitou assessorá-lo e contatou Marcos Lisboa.
Dessa vez, Marcos disse que gostaria de elaborar um documento com diagnósticos sobre os problemas brasileiros e propostas de políticas, mas que gostaria que esse documento fosse distribuído aos assessores econômicos de todos os candidatos a presidente.
 Esse documento se chamaria “A Agenda Perdida: diagnósticos e propostas para a retomada do crescimento com maior justiça social”.
A Agenda Perdida seria coordenada e escrita por Alexandre Scheinkman e Marcos Lisboa com base em trabalhos e discussões com outros 17 economistas.
 Marcos Lisboa concluiu seu doutorado em economia pela Universidade da Pensilvânia em 1996 e foi contratado como professor pesquisador pelo departamento de economia da Universidade de Stanford. Essa é uma proeza ao alcance de muito poucos.
 Tipicamente, a cada ano, as universidades formam uns 15 PhDs em economia e contratam 1 ou 2.
Assim, de cada 10 pessoas que completam o PhD em uma universidade como Stanford, menos de uma irá conseguir um emprego como professor pesquisador num departamento desse nível.
 Sua estadia em Stanford, porém, seria curta. Marcos acabou escolhendo voltar ao Brasil depois de poucos anos e em 2002, atuava como professor da Fundação Getúlio Vargas no Rio de Janeiro.
 No contexto do debate sobre políticas públicas brasileiras, Lisboa era e é um economista bastante liberal com uma visão moderna da economia.
A Agenda Perdida ecoava essa visão liberal. Em particular, as propostas realçavam a necessidade de melhorar o ambiente de negócios.
 As propostas de reforma tributária focavam na redução das distorções causadas pelos impostos.
A Agenda Perdida identificava impostos que reduziam os incentivos para a produção e as trocas. Falava também sobre a necessidade de diminuir o custo de abrir e fechar empresas.
 Para os mercados de crédito, Agenda Perdida realçava a importância de garantias rapidamente executáveis e de um sistema legal que garantisse os direitos dos credores.
Esse enfoque parece semelhante às importantes reformas no mercado de crédito adotadas em 2004. Por que será?
 No que tange o comércio internacional, o documento era favorável à abertura comercial e contrário a políticas desenvolvimentistas de substituição de importações.
As políticas monetária e fiscal deveriam buscar acabar com a instabilidade macroeconômica a fim de não atrapalhar o crescimento da economia.
Em suma, a visão liberal norteava as propostas da Agenda Perdida.
1Os planos do PT para a presidência tinham uma visão da economia completamente diferente.
Enquanto a Agenda Perdida propunha desatar as amarras que atrapalhavam os empreendedores, as resoluções do Encontro Nacional do PT em 2001 tinham como objetivo  “derrotar o liberalismo.
Lula foi por outro caminho e assinou a “Carta ao Povo Brasileiro”, divulgada em junho de 2002. A Carta era um manifesto de 4 páginas, um tanto vago sobre as ações que seriam tomadas, sem propostas detalhadas. Por meio dessa Carta, Lula prometia respeitar os contratos e obrigações do país (ou seja, pagar a dívida pública), prometia “preservar o superávit primário” para que isso fosse possível e afirmava o compromisso com o combate à inflação (mas quem diria o contrário?).
 A atenção que esses pontos receberam demonstra, mais que qualquer outra coisa, o tipo de dúvida que então pairava sobre as ações de um possível governo de Lula em 2003.
 De modo geral, a Carta ao Povo Brasileiro de fato apontava para uma transição tranquila e responsável. Contudo, o objetivo do novo governo seria “a superação do atual modelo”.
 Em princípio, isso pode significar qualquer coisa, mas considerando todos os outros documentos do PT, é impossível interpretar a Carta como uma proposta de aprofundamento de um modelo capitalista liberal.
Lula venceria a eleição e nomearia o médico e deputado eleito pelo PT Antonio Palocci como Ministro da Fazenda. Contudo, as ideias dos economistas do PT sobre a economia não entrariam no Ministério.
 Para a Secretaria de Política Econômica, Palocci chamaria Marcos Lisboa, que aceitaria o desafio.
Marcos, o economista liberal, era muito “de direita” para o candidato do PSDB e completamente antagônico às ideias dos economistas “de esquerda”.
Mas era a sua agenda que o Ministro Palocci buscava trazer para o Ministério da Fazenda.

Texto adaptado do livro A Riqueza das Nações do Século XXI de Bernardo Guimarães. Economista Pesquisador da EESP/FGV]







































sábado, 3 de novembro de 2018

DEZ LIVROS OBRIGATÓRIOS EM LITERATURA. 
Indicação do filósofo Paulo Ghiraldelli
1. Livro de Jó (Bíblia), 
2. De bello gallico, A guerra gaulesa (de Caio Júlio César), 
3. A Divina Comédia (Dante Alighieri), 
4.. Fausto (J. W. Goethe), 
5. Oliver Twist (Charles Dickens), 
6. Dom Quixote (Miguel de Cervantes), 
7. Os Lusíadas (Luís Vaz de Camões), 
8. Dom Casmurro (Machado de Assis) 
9. Romanceiro da Inconfidência (Cecília Meireles), 
10. Incidente em Antares (Érico Veríssimo). – Indicação do escritor Deonísio da Silva.
QUINZE LIVROS OBRIGATÓRIOS EM FILOSOFIA. 
1. Gênesis (Bíblia), 
2. A República (Platão), 
3. Confissões (Agostinho), 
4. Ensaios (Montaigne), 
5. Pensamentos (Pascal), 
6. Meditações metafísicas (Descartes), 
7. Os devaneios do caminhante solitário (Rousseau), 
8. Prolegômenos à toda metafísica futura (Kant), 
9. Fenomenologia do Espírito (Hegel), 
10. O Capitak (Vol. 1) (Marx), 
11. A genealogia da moral (Nietzsche), 
12. Dialética do Iluminismo (Adorno e Horkheimer), 
13. Hermenêutica do sujeito (Foucault, aulas reunidas no Brasil sob esse título), 
14. A filosofia e o espelho da natureza (Rorty), 
15. Esferas I (Sloterdijk) – 

domingo, 10 de junho de 2018

Que fase

Os chantagistas e a falta da boa política - MARCOS LISBOA
FOLHA DE SP - 10/06
Cabe a políticos dialogar para respeitar o Estado de direito e não ceder a pressões
Há muito com o que se preocupar nos tempos atuais, sobretudo a rejeição da boa política.
O país enfrenta dificuldades para conciliar interesses divergentes em meio a uma economia que não tem como atender a todos os pedidos. Já há muito se sabe que os benefícios concedidos pelo governo não cabem no Orçamento.
Apesar disso, grupos organizados se mobilizam para pedir novos benefícios ou impedir a revisão dos seus privilégios.
A lista é longa. Servidores públicos fazem greve branca para garantir reajustes salariais apesar da perda de renda do restante da população. O bolo ficou menor depois da recessão, mas as dificuldades são irrelevantes para quem demanda seu butim.
Setores produtivos privilegiados com desonerações se recusam a pagar impostos como o restante da sociedade. Outros, como a agricultura recentemente, conseguem novos benefícios. Dane-se a restrição fiscal.
O petróleo ficou mais caro e os caminhoneiros paralisam o país, chantageando o restante da sociedade para que pague a conta do seu combustível.

Como o governo é fraco, aproveitam para pedir o tabelamento do frete de modo a restringir a concorrência e a aumentar as suas receitas, onerando o transporte de bens. Chantagem pouca é bobagem, e também exigem dispensa de licitação para vender seus serviços ao setor público.

O próximo governo precisará negociar as perdas inevitáveis. Há uma conta imensa a ser paga, talvez R$ 250 bilhões ao ano. Benefícios terão que ser reduzidos e tributos, aumentados.

Pior apenas a alternativa. A recessão recente pode ter sido apenas o prólogo de uma crise ainda mais severa.

Nossa democracia requer ampla maioria para superar os problemas. Não há como reduzir o crescimento dos gastos públicos sem reformar a Constituição ou as suas emendas, o que exige o apoio de 60% do Congresso.

Há mais. A extensão da Constituição tem justificado o ativismo do Judiciário que, com frequência, revê decisões do Congresso ou impõe novos gastos públicos, às vezes desconsiderando o bem-estar da maioria.

Enfrentar nossos desafios requer técnica para avaliar o impacto das propostas. Já tivemos em demasia, principalmente desde 2011, decisões incompetentes, com efeito contrário ao pretendido. Difícil imaginar as consequências de uma nova gestão que não saiba do que está falando.

A técnica, entretanto, apenas delimita possíveis soluções.

Resolver os problemas requer a liderança da política, a quem cabe dialogar com os demais Poderes e negociar conflitos respeitando o Estado de direito, sem transgredir por pressão de chantagistas.
Quem sabe o susto com o descontrole recente, que pode se agravar, ajude a recuperar a boa política.

Marcos Lisboa

Doutor em economia, foi secretário de Política Econômica no Ministério da Fazenda (2003 a 2005). Preside o Insper.

Links Octogramas

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Os sonhos da Fadinha

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